Um jardinzinho enganoso Antonio Dimas Universidade de São Paulo – Brasilien andimas@uol.com.br Com o nítido intuito de adestrar e de cooptar a população brasileira, o Estado Novo (1937-1945) de Getúlio Vargas (1883-1954) criou o Departamento de Imprensa e Propa- ganda (DIP), em dezembro de 1939, e entregou sua direção a Lourival Fontes. O objetivo desse novo órgão, junção aperfeiçoada de três outros anteriores, não deixava margem a dúvidas: tratava-se de setor governamental destinado ao controle da informação, ajustando-se muito bem aos ventos totalitários em curso no Ocidente. De acordo com o decreto que lhe deu origem, cabia ao DIP centralizar e coordenar a propaganda nacional, interna e externa, e servir como elemento auxiliar de informação dos ministérios e entidades públicas e privadas; organizar os serviços de turismo, interno e externo; fazer a censura do teatro, do cinema, das funções recreativas e esportivas, da radiodifusão, da literatura social e política e da imprensa; estimular a produção de filmes educativos nacionais e classificá-los para a concessão de prêmios e favores; colaborar com a imprensa estrangeira para evitar a divulgação de informações nocivas ao país; promover, organizar e patrocinar manifestações cívicas e festas populares com intuito patriótico, educativo ou de propaganda turística, assim como exposições demonstrativas das atividades do governo, e organizar e dirigir o pro- grama de radiodifusão oficial do governo. (Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Verbete "Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP") Exemplo comovente dessa política de adestramento das massas é um livreto de 1939, sem autoria explícita e denominado Um passeio de quatro meninos espertos na Exposição do Estado Novo. Na capa colorida, o perfil de uma senhora de meia idade sobrepõe-se ao de quatro garotos que disputam espaço com um conjunto de coloridas frutas tropicais devidamente protegidas, no alto, pela bandeira nacional e por alguns índices de modernidade técnica, como o avião, os arranha-céus e os portos mecanizados. Os ”quatro meninos espertos e inteligentes” (p. 3) são Antonio, João, Gustavo e André. Decidida a oferecer a eles respostas concretas e entusiásticas sobre as transformações políticas e sociais em andamento, a Professora Dona Maria de Lourdes suspende suas aulas e leva-os em visita didática à Exposição do Estado Novo, onde estão reunidas e demonstradas as conquistas materiais do governo getulista: modernização ferroviária, expansão da navegação aérea, erradicação da fome, obras contra as secas nordestinas, combate às endemias, mecanização agrícola, incremento das exportações, reaparelhamento das Forças Armadas, legislação social moderna etc. Claro que todas essas conquistas, pontifica D. Maria de Lourdes, só se tornaram possíveis porque a tarefa do Presidente Getúlio Vargas nunca era obstruída pela presença incômoda dos políticos. Segundo ensinava a professora, entre os bons resultados do Estado Novo está a vantagem do governo poder trabalhar com mais liberdade e proveito, sem perder tempo com as questões e casos criados 104 ALEG 2003