Controvérsia - Vol. 5, n° 2: 31-38 (mai-ago 2009) ISSN 1808-5253 Texto submetido em 09/10/08 e aprovado em 21/10/08. 31 Sobre ciência e moral no sentido de Nietzsche: por uma política da verdade On Science and Morals in Nietzsche’s Sense: towards a politics of truth Thiago Mota thmotafs@gmail.com Université de Toulouse II – Le Mirail. Erasmus Mundus Europhilosophie Resumo Abstract A tradição platônica compreendeu a relação entre ciência e moral como uma imbricação correspondente à relação entre Verdade em si e Bem em si. Num texto de juventude, Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, Nietzsche faz uma crítica a essa tradição em dois movimentos: em primeiro lugar, nega a existência ligação necessária entre Verdade e Bem, à medida que concebe uma noção trágica de verdade, pensada para além de Bem e de Mal; em segundo lugar, radicaliza sua crítica através de uma genealogia da Verdade. A partir daí, tento propor uma política da verdade que não se encontra em Nietzsche, mas certamente se encaminha no mesmo sentido que ele. The platonic tradition understood the relation between science and morals as an essential relation between the Truth itself and the Well itself. In a text from his first period of production, On Truth and Lies in a Non-Moral Sense, Nietzsche criticizes this tradition in two movements: at first, he denies the existence of a necessary link between Truth and Well because he conceives a tragic notion of truth which is beyond Good and Evil; then he radicalizes his critique through a genealogy of Truth. Therefore I essay to propose a politics of truth which is not properly in Nietzsche but which goes forth in his sense. Palavras-chave: platonismo; verdade; tragédia; genealogia; política. Key words: Platonism; truth; tragedy; genealogy; politics. 1 A condenação platônica da ciência moderna e seus limites Ciência e moral: eis a “afirmação” da qual gostaria de partir. Meu ponto de partida não é, portanto, nem a ciência nem a moral, mas a relação entre ambas que se afirma subrepticiamente quando se diz esse “e”, essa conjunção que liga ciência à moral e que, por vezes, passa como uma evidência. Para refletir sobre essa relação, parto de Sócrates, isto é, daquele que foi erigido pela tradição platônica em expressão máxima do ideal grego de homem. Nele, moral e ciência encontram-se intimamente unidas, emparelhadas em uma imbricação indissolúvel, como faces inseparáveis de uma mesma moeda. Essa imbricação pode ser formulada da seguinte maneira: aquele que sabe não há de se portar senão de acordo com o Bem. Somos lançados com isso diretamente no centro do problema filosófico grego clássico, naquilo que se convencionou chamar