sÆculum - REVISTA DE HISTÓRIA [21]; João Pessoa, jul./ dez. 2009. 135 TERRORISMO E VIOLÊNCIA POLÍTICA Giuseppe Tosi 1 É preciso que uma série tremenda de atentados assuste os poderosos e desperte o povo. E. Zola, Germinal Matais a todos, Deus reconhecerá os seus. Palavras do representante do Papa aos exterminadores dos cátaros de Béziers O terrorismo, num sentido amplo, é um fenômeno presente desde a Antiguidade, mas que assume um significado próprio e preciso somente em época moderna, sobretudo a partir da Revolução Francesa e das ações dos grupos revolucionários, especialmente anarquistas, do século XIX 2 . Ele adquiriu uma grande relevância na contemporaneidade, a partir da intensa propaganda que os países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, empreenderam para justificar suas pretensões hegemônicas, após a queda do comunismo. A direita conservadora estadunidense interpretou a derrubada do muro de Berlim não somente como a vitória do sistema econômico capitalista sobre o comunista e do sistema político liberal sobre o totalitarismo, mas como a vitória militar da terceira guerra mundial. Foi um desfecho imprevisto e imprevisível da guerra fria, onde um dos dois antagonistas simplesmente desmoronou, colapsou internamente, deixando um espaço político vazio que foi imediatamente ocupado pelas potências ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos: uma confirmação da teoria do horror vacui que domina as relações de poder 3 . Para justificar esta política, os Estados Unidos precisavam encontrar um novo inimigo, numa lógica realista de tipo schmittiano, e “terrorismo” servia muito bem para substituir “comunismo”. Tratava-se, porém, de um inimigo diferente: invisível, de-localizado, omnipresente, imprevisível. A guerra fria se travava entre dois Estados 1 Doutor em Filosofia pela Universitá degli Studi di Padova. Professor Associado do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Coordenador do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Universidade Federal da Paraíba. Email: <pinuccio@uol.com.br>. 2 BONANATE, L. Terrorismo político, In: BOBBIO, N.; MATTEUCCI, N.; PASQUINO, G. Il Dizionario di Politica, Torino: UTET, 2003. Mas o termo tem um uso mais antigo: por exemplo, Juan Ginés de Sepúlveda, para justificar a guerra justa contra os índios, afirmava que a política do “terror” era o único meio eficaz para a salvação (“cum igitur terrori utili doctrina salutaris adiungitur). Ver: TOSI, Giuseppe. Guerra e direito no debate sobre a conquista da América (Séc. XVI). Verba Juris, n. 5, 2006, p. 277-320. 3 O fim da Guerra Fria é um exemplo notável e raro do fim de um inteiro regime econômico, social e político de forma relativamente não violenta, apesar do enorme arsenal militar em jogo. Ver Bobbio: “Todavia, após quarenta anos [o ensaio foi escrito em 1997] desta situação das relações internacionais [guerra fria], a Terceira Guerra Mundial não explodiu. Era portanto possível aquilo que jamais ocorreu nos séculos passados, que um conflito entre grandes potências terminasse com a vitória de um dos adversários sem que fosse necessário o recurso às armas”. BOBBIO, N. O problema da guerra e as vias da paz. São Paulo: UNESP, 2003, p. 16.