Revista de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e Literatura Ano 16 - n.26 2º semestre2020 ISSN 1807-5193 140 DOIS CONTRA UM: ANUNCIAÇÃO DA GUERRA NA LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS Walker Douglas Pincerati Doutor em Linguística (UNICAMP). Docente da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), campus Jaguarão, Jaguarão, Rio Grande do Sul, Brasil RESUMO: Toma-se o ‘discurso’ como campo e a ‘guerra’ como discurso, tal como trabalhados em 1976 por Michel Foucault, para ver uma guerra na Libertação dos Escravos, do Pintor das Batalhas: Pedro Américo. Pontua-se essa guerra a partir da oposição branco versus negro. Objetiva-se mostrar que nessa relação o ‘negro’ não é apenas cor, mas também figura da manifestação do Mal. Escuta-se entre textos e imagens uma constante nesse embate: dois contra um. Constante que se escuta nos números contemporâneos da Violência no Brasil em 2018, contra os quais há de se desfazer de uma ilusão e tomar posição. PALAVRAS-CHAVE: Guerra. Discurso. Pintura. Racismo. Libertação dos Escravos. ABSTRACT: Discourse’ is taken as field and ‘war’ is taken as discourse as Michel Foucault did it in 1976 in order to see a war on the canvas Liberation of Slaves, by the Painter of Battles, Pedro Américo. This war is observed from the opposition between white and black. The objective is to show that in this relation ‘black’ is not only color, but also the manifestation of Evil. Among texts and images, something is constantly heard in the clash: two against one. That constant something is heard in Brazilian Violence figures in 2018: numbers against which illusions must come undone and against which we need to take a stand. KEYWORDS: War. Discourse. Painting. Racism. Liberation of Slaves. NO CAMPO DO DISCURSO 1 Na investigação sobre a formação do discurso racista brasileiro e sua especificidade no Brasil pode-se escutar uma conjunção de dizeres políticos com os religiosos: ambos anunciam a maldição que recai no corpo negro, cuja salvação é sua conversão (ver PINCERATI, 2016), e que aqui aparecerá sob a forma de uma inversão. Nessa perspectiva, o negro não é apenas cor, mas a metáfora do corpo do ser infernal. Assim, a oposição branco versus negro alinha-se a outras: céu versus inferno superior versus inferior bom versus mal... O que esse par opositivo revela sobre o discurso dito “racista”? 1 Este texto é uma versão ampliada e modificada de versões anteriores dele discutidas em eventos. Confesso que me incomodo com ele por ser um texto faltante pela natureza exploratória da análise que se quer construir: do racismo enquanto desdobramento do discurso da guerra a partir da visão de uma imagem. Quaisquer comentários, críticas, sugestões ou elogios, favor escrever para pincerati@gmail.com.