SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [39]; João Pessoa, jul./dez. 2018. 167 AUTORITARISMO E DEMOCRACIA EM PERSPECTIVA: O GOLPE DE 1964 NO BRASIL ATRAVÉS DA IMPRENSA COLOMBIANA Elaine Schmitt 1 Nashla Dahas 2 Introdução São já conhecidos no Brasil os estudos sobre os impactos do golpe civil-militar de 1964 sobre a grande imprensa, como a censura e as perseguições políticas, além das pesquisas que discutem o apoio de alguns jornais de grande circulação ao acontecimento, tais como O Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo e O Correio da Manhã. 3 Na tentativa de buscar novos olhares sobre o golpe brasileiro, este artigo apresenta os discursos produzidos pela imprensa colombiana entre março e maio de 1964. Serão analisadas as capas de um periódico de grande circulação, apontando, assim, para o destaque produzido pelo jornal ao acontecimento no Brasil. Acreditamos que este seja um passo no caminho para a expansão do quadro de análise histórica, que possibilitará a compreensão mais ampla das influências midiáticas e inter-relações entre os países vizinhos durante a década de 1960. Sendo assim, o artigo coloca a seguinte questão: como um dos jornais da grande imprensa colombiana retratou discursivamente o golpe civil-militar brasileiro? Faremos ainda uma apresentação panorâmica do ‘estado da arte’ da imprensa e do cenário político colombiano naquele momento. Partimos da importância da grande imprensa para a construção de um imaginário compartilhado pelo senso comum a respeito de acontecimentos considerados importantes para a vida local ou nacional. Além disso, é possível verificar e avaliar o esforço dessas empresas da comunicação no sentido da construção de certas memórias coletivas 4 a respeito destes mesmos eventos. Seguimos as contribuições de José D’Assunção Barros 5 , ao apontar para comparação como método de análise que visa a iluminar um objeto ou situação a partir de outro, frequentemente mais conhecido, permitindo a confecção de analogias, assim como a identificação de semelhanças e diferenças entre duas ou mais realidades. Além de tais gestos considerados quase intuitivos da operação histórica, Barros sugere que a História Comparada implica um processo autocrítico e autorreflexivo para o qual contribuem essencialmente as seguintes questões: “o que se pode comparar” e “como se compara”. Em conformidade com a especificidade de nosso tema, também faremos uso da proposições de Maria Ligia Coelho Prado 6 , em artigo dedicado à repensar a história comparada da América Latina. Segundo a autora, a história comparada deve fugir das justaposições e das classificações, mas também não deve estar comprometida com a busca de generalizações. Tratar-se-ia eminentemente de compreender as convergências e as particularidades das circunstâncias históricas e dos sujeitos em questão. 1 Mestre em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e doutoranda pelo Programa Interdisciplinar de Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina. Contato: elaine.schmitt@gmail.com. 2 Doutora em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e pós-doutoranda e professora colaboradora do Programa de Pós Graduação em História do Tempo Presente da Universidade do Estado de Santa Catarina. Contato: nashladahas@hotmail.com. 3 FICO, Carlos. Ditadura militar brasileira: aproximações teóricas e historiográficas. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 9, n. 20, p. 5, 74. jan./abr. 2017.; ABREU, Alzira A. A modernização da imprensa (1970-2000). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. 4 HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. 5 BARROS, José D’Assunção. História Comparada: da contribuição de Marc Bloch a constituição de um moderno campo historiográfico. História Social, n.13, p. 7-21, 2007. 6 PRADO, Maria Ligia Coelho. Repensando a história Comparada da América Latina. Revista de História 153 (2 - 2005), 11- 33.