32 IPOTESI, JUIZ DE FORA, v.23, n.1, p. 32-42, jan./jun. 2019 PRISÃO DE PAPEL 1 Juliana Prestes de Oliveira * Nícollas Cayann Teixeira Dutra ** Anselmo Peres Alós *** RESUMO: Este artigo busca refletir os significados presentes no conto O papel de parede amarelo (1891), de Charlotte Perkins Gilman, a fim de entender os aprisionamentos das mulheres a papéis sociais. Por meio dessa narrativa, pode-se traçar paralelos com as situações vivenciadas por ela, enquanto mulher e esposa, e por várias mulheres, na sociedade, ao longo do tempo. O conto apresenta práticas usadas pelo patriarcalismo para subjugar e determinar o comportamento feminino, como o discurso científico masculinista. Palavras-chave: Papel de parede amarelo. Mulheres. Aprisionamento. Charlotte Gilman. A Bíblia, umas das narrativas mais influentes na história ocidental, descreve a criação da mulher como parte integral do homem: “E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem formou uma mulher; e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2: 21-25). Durante muito tempo acreditou-se que as mulheres eram ou do mesmo corpo que o homem, ou ainda eram entendidas como uma parte integrante do homem. Foi só no ano de 1759 que o modelo de esqueleto masculino, foi comparado ao primeiro desenho de um esqueleto feminino, ilustrando, assim, as diferenças básicas entre os dois corpos (LAQUEUR, 2001, p. 22). O modelo narrativo responsável pelo estabelecimento do corpo da mulher em condições de subjacência ao corpo masculino é constantemente perpetuado por premissas essencialmente sexistas. Dessa forma, a mulher é vista como algo pertencente ao homem, como se dele ela dependesse para existir. Esse fato se deve, principalmente, ao pensamento que conjuga o ser feminino como propriedade do corpo “original” do homem. O vínculo de posse fica então estabelecido na dicotomia homem vs. Mulher, nas proporções que: mulheres são objetos/bens e homens são proprietários. No ano de 2012, isto é, recentemente, a palavra francófona Mademoiselle passou por um processo interessante nos documentos oficiais franceses ( LE MONDE, 2012), ela foi dispensada. Em língua francesa, a palavra Monsieur é o pronome de tratamento que corresponde a “senhor” no mundo lusófono; enquanto isso a palavra Madame é usada para referências uma mulher que já se comprometeu em matrimônio (que já está sob “posse” de um homem), e a palavra Mademoiselle é usada para designar uma mulher que não é casada (ou seja, ainda disponível para ser “posse” de um homem) - note-se que esta função diferencial, tão utilizada no feminino (inclusive como uma regra de etiqueta) não existe no âmbito dos pronomes masculinos. A formação desses substantivos francófonos é estabelecida através do uso dos adjetivos possessivos da língua francesa, deste modo, estes vocábulos são condicionados diretamente à ideia de posse. A ideia de que a mulher é propriedade do marido, do pai, ou de qualquer homem, ou até mesmo de seres míticos, bíblicos e afins, dá um tom narrativo de subordinação que persegue e aprisiona as mulheres historicamente, amplificando, * Mestre em Letras: Estudos Literários. Doutoranda em Letras Estudos Literários, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Licenciada em Letras Português-Inglês, pela UTFPR/Pato Branco e Especialista em TIC aplicadas à educação. E-mail: jprestesdeoliveira@gmail.com ** Mestre em Literatura Comparada, pela UNILA-PR. Doutorando em Letras: Estudos Literários, pela UFSM. Bacharel em Relações Internacionais, pela UFPEL-RS. E-mail: nicollascayann@gmail.com *** Doutor em Letras: Estudos Literários e Licenciado em Letras, ambos pela UFGRS-RS. Professor doutor adjunto IV no Departamento de Letras Vernáculas e do PPPG Letras, ambos da UFSM. E-mail: anselmoperesalos@gmail.com