Navegações v. 4, n. 1, p. 110-113, jan./jun. 2011 EntrEvistas/DocumEntos Um inventor poeta: a geleia de Alexandre Inácio Silveira oferecida à Princesa do Brasil Francisco Topa Universidade do Porto Encontra-se na Biblioteca da Ajuda uma curiosa epístola em verso que parece encerrar um pequeno enigma da história culinária luso-brasileira. O texto, em letra cuidada, provavelmente dos fnais do século XVIII, ocupa cinco páginas de um manuscrito avulso com a cota 49-III-53, vindo assinado por um Alexandre Inácio da Silveira, personalidade sobre a qual não pude apurar outros dados senão os que resultam da própria epístola. A falta de datação pode em parte ser compensada pelas indicações sugeridas pelo destinatário da epístola: a Princesa do Brasil. Como é sabido, este título — que vigorou entre 1645 e 1808 — era atribuído ao herdeiro presuntivo do trono de Portugal, inicialmente apenas ao varão e, a partir de 1734, independentemente do seu sexo. A única mulher que recebeu diretamente este título foi a futura rainha D. Maria I. Filha primogénita de D. José I e de D. Mariana Vitória de Áustria, recebeu à nascença, do avô, D. João V, o título de Princesa da Beira, que deveria usar enquanto o herdeiro do trono, o Príncipe do Brasil, D. José, não alcançasse herdeiro varão. Como o seu irmão só teve flhas, D. Maria intitulou-se apenas Princesa da Beira até à morte de D. João V, ocorrida em 1750. A partir daí, passou a ser Princesa do Brasil e Duquesa de Bragança, passando o título de Príncipe da Beira para o seu primogénito e presuntivo herdeiro da Coroa, D. José. D. Maria foi portanto Princesa do Brasil entre 1750 e 1777, ano da sua subida ao trono. Embora talvez menos óbvias, há ainda duas outras hipóteses de identifcação da destinatária da epístola de Alexandre Inácio da Silveira: a irmã e nora de D. Maria, D. Maria Francisca Benedita, esposa de D. José desde 1777 e, pelo casamento, também Princesa do Brasil, título que terá usado mesmo depois da morte do esposo, ocorrida em 1788; D. Carlota Joaquina, esposa do futuro D. João VI, o qual, depois da morte do irmão D. José, passou a herdeiro do trono, com o título de Príncipe do Brasil, recebido também pela sua consorte. Em ambos os casos, o título de Princesa do Brasil decorre do casamento, o que não invalida a possibilidade de a epístola de Alexandre da Silveira ter sido dirigida a uma destas Princesas. A datação do poema permanece assim pouco precisa, fcando confnada a um período longo que se estende por toda a segunda metade de setecentos até aos primeiros anos do século seguinte. Como veremos, esta não é uma questão secundária: dela poderia resultar uma identifcação mais inequívoca da alegada descoberta culinária que constitui o motivo principal do texto. Fólio inicial do Ms. 49-III-53 da Biblioteca da Ajuda Composta em verso decassilábico – quase sempre heroico, surgindo o sáfco nos vv. 1 e 40 e o pentâmetro