NATUREZA E DEGRADA˙ˆO MORAL EM JEAN-JACQUES ROUSSEAU Resumo: O tom pessimista adotado por Rousseau em seu Discurso sobre as CiŒncias e as Artes e em seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens chama a atenªo atØ mesmo do leitor mais desavisado. De fato, quando observamos o tom adotado pelo autor nesses dois textos, nªo Ø de espantar que ele tenha dedicado boa parte de sua obra a propor o que poderia ser entendido como um punhado de tentativas de soluªo para os problemas que nos sªo apresentados nos trabalhos entregues Academia de Dijon. Por outro lado, os movimentos que observamos nos dois Discursos parecem deixar claro que, para Rousseau, a decadŒncia que ele observava na sociedade de seu tempo seria o resultado inevitÆvel de um processo que, uma vez colocado em curso, nªo permitiria escapatria, o que bastaria para transformar obras como Do Contrato Social em pouco mais que ferramentas œteis para diagnosticar os malefcios que acometessem uma sociedade. precisamente a tensªo entre esses dois pontos de vista, o da constataªo desesperada de nossa decadŒncia e o do autor que parece trabalhar em uma obra que possa promover mudanas, que constituirÆ o fio condutor deste artigo. Palavras-chave: Rousseau degradaªo natureza refinamento moral. Rousseau certamente parece, ao menos em boa parte de seus textos, muito mais pessimista que a maioria de seus contemporneos. Ainda que nos oferea reflexıes alentadoras sobre a bondade natural do homem, deixa claro que este foi tornado inegavelmente pior pela vida em sociedade. Ainda que, em seu Do Contrato Social, apresente um modelo de estado que nªo implicaria a corrupªo irremediÆvel dos indivduos que o constituem, certamente nªo considera que os homens de seu tempo vivem segundo tal modelo. Isso fica evidente, por exemplo, quando observamos as hipteses que ele traa no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens , as quais, alØm de fornecer uma explicaªo de cunho histrico/naturalista para as referidas desigualdades, deixam transparecer que Ø provÆvel que, uma vez cumpridas certas condiıes, as coisas nªo pudessem ter sido de outro modo. O segundo Discurso pode ser visto, no fim das contas, como a histria do modo como o gŒnero humano, a partir da instituiªo da propriedade, passou por um processo inexorÆvel de corrupªo moral. O Discurso sobre as ciŒncias e as artes, por sua vez, nªo nos oferece consideraıes muito mais otimistas sobre o provÆvel destino moral dos homens. Neste œltimo texto, Rousseau trata de nos mostrar, de maneira bastante enfÆtica, como Ø que, inebriados pelo luxo que Ø consequŒncia necessÆria do desenvolvimento das artes, tornamo-nos