A (i)materialidade do som: antropologia e sonoridades * Filipe Reis ISCTE/CRIA 1. Introdução: a (i)materialidade do som “Quão fundo vai a nossa audição! Pensem em tudo o que significa compreender algo que simplesmente ouvimos. A qualidade divina de ter ouvidos!” Phillip Roth “Pouco se tem sublinhado que, enquanto nos ficou do passado uma enorme quantidade de documentos escritos e visuais, nada nos ficou das vozes antes dos primeiros fonógrafos roufenhos do século XIX. (...) Nem a Antiguidade nem qualquer dos séculos intermédios [até ao século XIX] nos ofereceram o equivalente de uma conversa de Pedro Bezukhov com o príncipe André, em Tolstoi, do Rosmer de Ibsen com Rebeca West e o seu manhoso cunhado...(...). A transcrição de palavras em termos puramente realistas, sem interferências de qualquer espécie, é curiosamente contemporânea dois dois meios de comunicação de reprodução do objecto, o fonógrafo e a fotografia” Marguerite Yourcenar O som é efémero e evanescente, embora não seja imaterial. O som é essa vibração que se “transmite para a atmosfera sob a forma de uma propagação ondulatória, que o nosso ouvido é capaz de capta[r] e que o cérebro (...) interpreta, dando-lhe configurações e sentidos” (Wisnik 1989:15). Não é dos aspectos propriamente materiais ou físicos, do som que me atreveria a falar aqui uma vez que não sou físico ou engenheiro de som, mas sim antropólogo. É nesta qualidade que me interessa * O autor gostaria de agradecer a Maria Cardeira da Silva e a Paulo Costa, organizadores deste Colóquio, o convite para apresentar a comunicação que está na origem do presente texto. A realização da pesquisa de terreno foi possível graças ao apoio da Fundação de Ciência e Tecnologia.