Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, S. Paulo, 9 : 282-287, 1999. A GRÉCIA ANTIGA EM REVISTA MARTIN, R. T. Breve História da Grécia Clássica: da Pré-História à Época Helenística. Tradução de Maria José Figueiredo. Lisboa: Editorial Presença, 1998,382p. II. e mapa. Vagner Carvalheiro Porto* O título original Ancient Greeee: From Prehistoric to Hellenistic Times, pode nos dizer melhor qual a dimensão proposta pelo autor ao realizar este trabalho. Dividido em dez capítu- los, o livro de T. Martin procura entrelaçar com sutileza todos os períodos históricos da Grécia, de modo que os fatos descritos para cada um destes períodos venha a explicitar os elementos contidos no período posterior, e desta maneira criar um corpo coeso do que foi a história da Grécia, desde suas origens até o início do perío- do helenístico. Na verdade, este livro faz parte de um trabalho anterior “Visão Histórica Geral” incluído nas bases de dados eletrônicas publica- das em Perseus: Interactive Sources and Studies on Ancient Greeee, Gregory Cane, organizador principal, versões 1.0 e 2.0 (Yale University Press, 1992 e 1996, respectivamente). Percebe- mos então que, neste sentido abrangente, a obra de T. Martin é um guia tradicional que propõe descrever de maneira sucinta todo o transcorrer da história da Grécia Antiga, dando destaque para discussões importantes como: continuida- de cultural e étnica entre a pré-história e a Grécia histórica; a participação da mulher na socieda- de grega; a questão da nomenclatura utilizada; a formação da pólis\ a constituição da democra- cia; as guerras que emolduraram a história de Atenas; a presença da Filosofia; os desenvolvi- mentos religiosos e culturais. Sobre vários as- suntos e, na medida em que a proposta de ma- nual permite, são introduzidos debates que ain- da hoje ocorrem e são destacadas as posições divergentes a respeito de cada ponto. (*) Museu de Arqueologia e Etnologia. Pós-Graduação em Arqueologia, Mestrado. Ainda que este não seja um texto fundamen- tado nas informações arqueológicas exclusivamente, o autor vale-se da Arqueologia, não apenas para ilus - trar os pontos que discute, como também para pro- por novas temáticas e abordagens. Logo de início, o autor destaca as características físicas do território gre- go, planícies e vales separados por montanhas escarpa- das e um litoral amplamente recortado, abordando as implicações destas características para a fragmentação política na Grécia. Ainda que o autor procure destacar ser impossível identificar os povos que habitaram a Grécia em época pré-histórica como “gregos”, salienta elemen- tos que apontam para uma continuidade entre a cultura paleolítica e a grega propriamente dita. Assim, faz ques- tão de lembrar que muitos elementos que mais tarde tomar-se-ão características tipicamente gregas já esta- vam presentes anteriormente: Io reconheciam a propri- edade privada da terra; 2o interesses pelo comércio e contato com outros povos prefiguravam modelos sub- seqüentes de trocas; 3o a exemplo dos paleolíticos, a religião grega tardia fazia dos sacrifícios de animais de grande porte seu mais importante ritual público; 4o ao contrário de outras tribos européias que possuíam prin- cípios igualitários, os povos que habitavam a Grécia destacavam-se por criar relações hierárquicas. Para mostrar que essa hierarquia já se observava nos primei- ros habitantes da Grécia, T. Martin ilustra com o exem- plo de Lefkandi, na ilha de Eubéia, século X a.C., onde foram encontrados alguns túmulos ricamente guarneci- dos com produtos de luxo. Esses achados arqueológi- cos nos atestam que seu povo possuía comprovada di- ferenciação social, ou seja, possuíam relações hierár- quicas, pois, os ricos túmulos pertenciam à elite local e os túmulos mais simples aos demais habitantes. O autor insere no livro a discussão sobre as for- mas de contato de gregos com o Próximo Oriente. E exposta a teoria da difusão cultural a partir do Orien- te, na qual o autor nos mostra como a influência do 282