Lumina - Facom/UFJF - v.2, n.1, p.59-73, jan/jun. 1999 - www.facom.ufjf.br Do Desmascaramento ao Descrédito Paulo Vaz* e Fernanda Bruno** > Análise de dois episódios recentes de nossa história para se pensar as mudanças nas relações entre mídia e política. A incerteza como marca da cultura contemporânea. O conceito de credibilidade, antes restrito a uma relação com a verdade, pensado em sua dimensão temporal. A oportunidade e o dever de repensar a forma da notícia. 1. Cultura e incerteza Incerteza cotidiana e permanente, eis o que caracteriza a cultura contemporânea. Nós, brasileiros, não encontramos dificuldades em reconhecer esta caracterização. Afinal, nos últimos 15 anos, em diversas ocasiões e inesperadamente, conquistamos e perdemos empregos, imaginamos projetos para logo abandoná-los, sonhamos e vimos desabar o horizonte que permitia sonhar. Tanta incerteza não resulta apenas dos sucessivos e malogrados planos de políticos e economistas. A aceleração das mudanças provocadas pela explosão tecnológica, a oscilação das moedas com o fim do padrão-ouro, a perda de autonomia dos Estados-nação e o crescente poder dos capitalistas sobre os trabalhadores promoveram uma radical privatização do destino humano 1 . Expliquemos: a velocidade das mudanças tecnológicas força todos à flexibilidade nos modos de agir e pensar. A instabilidade financeira ameaça a produção, pois empresas podem falir mesmo que sua produtividade e taxa de lucro estejam positivas. Basta, por exemplo, que tenham feito empréstimos internacionais e que a moeda do país desvalorize. Já a perda de autonomia dos Estados-nação restringe o poder dos habitantes de um país de pressionar os políticos e, deste modo, controlar seus destinos. Por último, a força recente conquistada pelo capital globalizado e imaterial coloca para cada trabalhador a ameaça de se tornar subitamente um inútil para o mundo. Se uma empresa se depara com dificuldades políticas e econômicas em um determinado país, ela simplesmente transfere para outro local seus investimentos. E cada local deve considerar quase como sendo uma dádiva divina que uma empresa tenha decidido nele investir. A outra face do dom é a irresponsabilidade da empresa diante do futuro de cada local: o mero fato de gerar empregos já é tido como suficiente. Uma estatística publicada pela ONU sobre a variação da distribuição de renda dimensiona o imenso poder conquistado pelo capital. Em 1997, os 358 bilionários globais possuíam uma riqueza total equivalente àquela dos 2,3 bilhões de pessoas mais pobres do mundo. Há trinta anos atrás, a riqueza global dos países mais pobres do mundo equivalia a magros 2,3 % da riqueza total. Em 1997, esta proporção caiu para 1,4% 2 . A contrapartida da incerteza e da aceleração – também conhecida como “globalização” ou “crise da política” – é a criação de uma ordem social onde o valor dos indivíduos reside na apreensão de possibilidades e na habilidade em evitar ou gerir o risco. Cada vez mais, torna-se individualizada a tarefa de gerir nossa permanência e nossas oportunidades. Observemos que a segurança, a saúde e a educação estão sendo crescentemente privatizadas no mundo. Tarefa imensa; contudo, para a grande maioria, é uma tarefa inevitavelmente fadada ao fracasso, pois o futuro dos homens é cada vez mais determinado pelo movimento caótico dos mercados financeiros. Estamos sempre amea- çados de perder o solo – o cenário – onde nossos projetos e as ações que os encaminham ganham sentido. Os pais podem gastar fortunas educando filhos que realmente se dedicam a