195 EM BUSCA DO “BOM VIVER”: USOS E SIGNIFICADOS DA JUSTIÇA EM COMUNIDADES CAMPONESAS Maíra Ines Vendrame Começo este artigo com uma rápida reflexão sobre algumas ideias levantadas no livro O poder na aldeia: redes sociais, honra familiar e práticas de justiça entre os camponeses italianos (Brasil-Itália), publicado em 2016. O referido estudo analisa a trajetória de um padre italiano que, no ano de 1881, fixou-se numa das regiões de colonização italiana do Rio Grande do Sul, vindo a falecer nos primeiros dias de 1900. Encontrado muito machucado numa das estradas da ex-Colônia Silveira Martins 185 , centro do território sul-rio-grandense, o sacerdote foi transportado até a casa paroquial com graves ferimentos no “baixo ventre”, onde permaneceu com vida pelo período de três dias. Após ser assistido por um médico especia- lista em doenças sifilíticas e urinárias, constatou ser o caso perdido devido à gravidade do estado de saúde. Ainda assim, foram tomadas providências para elaboração do testamento. Na presença de sete testemunhas, na sua maioria chefes de famílias da região colonial, o padre Antônio Sório ditou o seu testamento, distribuindo os bens aos quatro sobrinhos que viviam na paróquia administrada por ele. Conforme registro de óbito, a queda do cavalo aparece como a justi- ficativa dos ferimentos que ocasionaram a morte do pároco. Porém, outra explicação passou a ser acreditada pela população colonial. Após o sepul- tamento, nos meses e anos seguintes, em vez de uma fatalidade, a morte do pároco começou a ser explicada como decorrente de uma emboscada. Para os imigrantes da região, os graves ferimentos produzidos no “baixo ventre” com “violação da bexiga”, conforme aparece no registro de óbito, passaram a ser entendidos como indícios que apontavam para um tipo de punição física (VENDRAME, 2016). 185 Fundada na década de 70 do século XIX, a Colônia Silveira Martins teve por primeiro nome: Quarto núcleo de colonização italiana do Rio Grande do Sul. Os três primeiros núcleos foram fundados na parte nordeste do Estado, enquanto o quarto, no centro do território sul-rio-grandense. Esses núcleos receberem, nas décadas finais do oitocentos, grupos de imigrantes italianos que fundaram pequenas comunidades e, na maior parte, passaram a se dedicar a atividades agrícolas e artes nas terras recebidas.