RESENHA MANUAIS PARA MATAR UMA DEMOCRACIA: UMA RESENHA DE COMO AS DEMOCRACIAS MORREM, DE STEVEN LEVITSKY E DANIEL ZIBLATT E COMO A DEMOCRACIA CHEGA AO FIM, DE DAVID RUNCIMAN Sergio Schargel 1 iversos livros têm sido lançados sobre a onda iliberal que varreu o mundo na última década. Pouco se tem debatido tanto na ciência política, e nas ciências humanas em geral, quanto a recessão democrática mundial. A atenção é tanta, que dois livros com praticamente o mesmo título e ideias foram lançados com um espaço de pouco mais de seis meses: Como a democracia chega ao fim, de David Runciman; e Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Tanto o livro de Runciman quanto o de Levitsky e Ziblatt defendem a mesma ideia: a democracia, em recessão global pelo décimo quarto ano consecutivo (Freedom House, 2020), está sendo destroçada gradualmente por governos populistas, para não dizer fascistas. Se antigamente a morte da democracia se dava através de uma ruptura violenta, e era visível quando chegava ao fim, agora ela é lentamente devorada, de dentro para fora, através dela própria (Levitsky e Ziblatt, 2018, p. 15). Como uma cobra devorando seu próprio rabo, os anti-democráticos se utilizam das instituições democráticas para corroê-la. Ambos os livros, porém, tendem a curiosamente ignorar que esse processo de capturar as instituições democráticas para utilizá-las contra a própria democracia não é novo. De uma forma ou de outra, populistas do passado também se apoiaram na mesma estratégia. Tanto Hitler quanto Mussolini, importante lembrar, chegaram 1 Mestrado em Literatura (PUC-Rio); Mestrado em Ciência Política (Unirio). Contato: sergioschargel_maia@hotmail.com. D