ARQUITETURA, AMOR E EROTISMO Rodrigo Bastos Em poema cujo desenvolvimento é uma espécie de resposta ao diálogo O Banquete, de Platão, Carlos Drummond de Andrade adver>u o quanto Amor é “essencial” . Emulando os an>gos, em 1 plena modernidade, o poeta invocou a presença a>va do deus logo nos primeiros versos, a originar, guiar e envolver a criação: Amor — pois que é palavra essencial Comece esta canção e toda a envolva. Amor, guie o meu verso e enquanto o guia, reúna alma e desejo, membro e vulva. Drummond parece ques>onar Platão, ao indagar: “Quem ousará dizer que ele é só alma?”, ainda que tenha reconhecido que o filósofo pudera contemplar — como rezou o discurso do cômico Aristófanes — a completude andrógina original: O corpo, noutro corpo entrelaçado, fundido, dissolvido, volta à origem dos seres, que Platão viu completados: é um, perfeito em dois; são dois em um. 2 Ao final, versos aludem a um certo “amor terrestre”, em evidente confrontação à idealização platônica; uma espécie de amor que acrescentaria muito ao amor divino, — descoberta humana que não pode ser comparada à luz radiante da saída da caverna (A República, VII), pois ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural. Rio de Janeiro: Record, 2002. Amor, pois que a palavra é 1 essencial, pp. 19-20. Um dos par>cipantes do famoso convivium platônico, Aristófanes definiu assim a relação do amor com a an>ga 2 perfeição, cindida em duas metades por dolo aos deuses: “É daí que se origina o amor que as criaturas sentem umas pelas outras; e esse amor tende a recompor a an>ga natureza, procurando de dois fazer um só, e assim restaurar a an>ga perfeição”. PLATÃO. Diálogos I: Mênon, O Banquete, Fedro. Trad. de Jorge Paleikat. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999. O Banquete, p. 97. Oportuno conferir também o discurso de Aristófanes no comentário de Ficino ao Banquete: FICINO, Marsilio. De amore. Commentarium in Convivium Platonis. Traducción, presentación y notas de Rocío de la Villa Ardura. Madrid: Tecnos, 1986. IV, I-II, 65-8.