A ascensão da economia chinesa está diretamente relacionada ao desenvolvimento do setor manufatureiro de larga escala, voltado para a exportação, bem como ao fortalecimento do seu mercado interno. Recentemente, verifica-se que os setores de serviços, inovação e tecnologia tem dinamizado a economia do gigante asiático (Alden & Jiang, 2019), fortalecendo a competitividade chinesa frente a países centrais, a exemplo das disputas em torno da tecnologia 5G. Não obstante às áreas citadas, o papel da China como credor internacional, a despeito de ser um elemento fundamental para a compreensão das dinâmicas atuais da economia deste país, tem sido pouco estudado (Alden & Jiang, 2019). Com a finalidade de contribuir para o preenchimento desta lacuna, a primeira edição do Boletim do GEPAP pretende lançar luz sobre os investimentos chineses direcionados a países em desenvolvimento realizados sob a forma de empréstimos. Neste tipo de negociação, o fluxo de capital chinês é direcionado, sobretudo, para países do Sul Global. Os empréstimos não seguem um padrão único, podendo ser realizado por diferentes mecanismos além de envolver diversos atores, entre entidades estatais e privadas. Um dos modelos de empréstimos que tem levantado questionamentos, pela mídia e pesquisadores, são os denominados commodity-backed Loan ou Resource-backed Loan (Brautigam & Gallagher, 2014). Correspondem a um modelo de financiamento, concedido a governos e empresas estatais, em que o reembolso garantido por meio de recursos naturais ou por um fluxo de renda futura relacionado a esses recursos. Na grande maioria dos casos, o financiamento externo é direcionado ao setor de infraestrutura, atrelado à produção e extração dos recursos naturais. Tais empréstimos surgem como uma fonte de financiamento que substitui o financiamento privado tradicional de longo prazo em países em desenvolvimento (Halland & Canuto, 2013; Mihalyi, Adam, Hwang, 2020). Para financiar seus projetos, países em desenvolvimento na América Latina e na África estão entre os que mais recorreram aos empréstimos garantidos em recursos naturais. A despeito de muitos apresentarem alto risco político, econômico e fraca capacidade institucional, o setor extrativista desses países produzem retornos altos o suficiente para compensar o fornecimento de crédito. Assim, a limitação no acesso aos mercados de capital internacionais e a abundância de recursos naturais, os tornam atrativos para investimentos no setor extrativista (Halland & Canuto, 2013; Mihalyi, Adam, Hwang, 2020). Apesar da rentabilidade dos credores, os riscos para os países tomadores de empréstimos podem trazer consequências desastrosas principalmente em contextos em que as instituições são frágeis. Existe a possibilidade de que esses países estejam hipotecando a riqueza do subsolo da nação sem muito investimento produtivo. Além disso, flutuações nos preços dos recursos podem incapacitar a alocação de cargas físicas dos recursos como pagamento de dívidas ao mesmo tempo em que o país tenta manter uma renda interna (Halland & Canuto, 2013; Mihalyi, Adam, Hwang, 2020). EMPRÉSTIMOS CHINESES GARANTIDOS EM COMMODITIES - ÁFRICA E AMÉRICA LATINA Boletim 01 G r u p o d e e s t u d o s e p e s q u i s a e m á s i a p a c í f i c o @gepap.uepb @GepapUepb gepap.uepb@gmail.com Polianna de Almeida Portela Aline Carolina da Rocha Mota Alexandre César Cunha Leite Sexta-feira 04/09/2020