V CONGRESO INTERNACIONAL DE BARROCO IBEROAMERICANO 489 1. Introdução “Dificilmente se admite que um ser social e cultural tão cercado de ‘objetos materiais’ do Oriente, como o brasileiro ウou o portugurs do %rasilウ da época colonial e dos primeiros anos do século XIX, nmo soIresse inチurncias orientais nos seus modos de pensar e sentir 1 ”. Elementos materiais smo reチexos de realidades imateriais, como destacou Gilberto Freyre. O que dizer, então, do imenso leque de objetos com motivos decorativos híbridos alusivos ao continente asiático, que decoravam as igrejas coloniais da América Portuguesa, e mesmo que em pouca medida, estão ainda nelas conservados? São manifestações e apro- ximações ao tema por e para uma sociedade mestiça. A presença de ornamentos de gosto asiático na decoração de espaços religiosos e na cultura material do período colonial no Brasil, parece vincular-se, sobretudo, a redes de circulação em escala global, fontes de novos repertórios e modelos que se insta- laram no imaginário e nos hábitos dos brasileiros, seja no âmbito doméstico, religioso ou público. Junto à variada categoria de objetos, como arcas, esteiras, tecidos, colchas, xales, porcelanas, biombos, caixas, louças, leques, pentes, etc., também especiarias, plantas medicinais, チores e Irutos vindos da ノsia, transitaram e se adaptaram perfeitamente ao cotidiano e à paisagem americana. Pelos mares, entre sertões. Redes de circulação e de conexões do gosto asiático na arte Barroca no Brasil DE ALMEIDA MARTINS, Renata Maria Universidade de São Paulo MIGLIACCIO, Luciano Universidade de São Paulo Ao mesmo tempo, o gosto por artefatos e motivos de inspiração asiática responde às encomendas europeias para exportação, ou endereçadas às reali- dades locais americanas, processo benefciado pelos diferentes graus e formas de trocas entre diferentes tradio}es artísticas, experirncia e destreza tpcnicas dos indígenas, africanos e mestiços, em combinações infnitas e ciIradas dos saberes ancestrais dos povos originários, nesses “mundos misturados” 2 . São muitos os exemplos de objetos de origem asiá- tica, quase sempre aportados em outros de modelos e tpcnicas já fltrados e orientados pelas exigrncias do mercado europeu, que ao se intercambiarem com as práticas artísticas e a cultura material do mundo americano, produziram criações originais e surpreendentes, muitas vezes únicas, que procuravam reinterpretar os modelos e os materiais que recebiam, como a laca, o marfm, a tartaruga, a seda, a madre- pérola, etc. Cada qual, um capítulo à parte que nos Iala de m~ltiplas permutas e transIerrncias culturais estabelecidas, em várias direções: vernizes produ- zidos na América que substituíam a laca chinesa ou japonesa, ウcomo no Estado 0aranhmo e *rmoウ3ará, na Nueva Granada e na Nueva España-, materiais da チoresta amaz{nica que fngiam o marfm pigmentos e sofsticadas tpcnicas trxteis das culturas andinas que recriavam modelos de sedas chinesas, pinturas 1. FREYRE, Gilberto. China Tropical e outros escritos sobre a infuência do Oriente na cultura luso-brasileira. São Paulo: Global, 2011, pág. 94. 2. GRUZINSKI, Serge. “Os mundos misturados das monar- quias católicas e outras connected histories”. Topoi (Rio de Janeiro), v. 2, 2 (2001), págs. 175-195.