103 Fernando José Martins* A PEDAGOGIA DA TERRA Os sujeitos do campo e do ensino superior Educação, Sociedade & Culturas, nº 36, 2012, 103-119 No contexto das políticas e práticas do ensino superior, de um modo geral, cada vez mais atre- ladas à lógica de mercado, busca-se neste artigo** dar visibilidade a uma experiência neste nível de ensino que se pretende posicionar na contracorrente de tal lógica: a Pedagogia da Terra. Sob a forma de política pública afirmativa, voltada para os sujeitos do campo, é construído, no Brasil, um curso especial, com características singulares e próprias, que tem chamado a atenção de pesquisadores e da sociedade civil. Esta experiência indicia elementos significativos que almejam a definição de políticas e práticas de um ensino superior vinculado a uma perspectiva emancipatória, orientado especificamente para as camadas populares. Palavras-chave: movimentos sociais, participação, universidade Introdução Não seria difícil traçar um panorama definindo o caráter desigual, excludente e elitista do ensino superior. Poderia fazê-lo estatisticamente, com dados em relação ao acesso da popula- ção a esse nível de ensino, que se agravariam ao cruzá-los com as condições sociais dos estu- dantes que frequentam o ensino superior 1 . Contudo, procurarei ater-me ao caráter qualitativo desse panorama, que Chauí (1999) define como operacional, dada a sua submissão aos dita- mes do capital. Nesse sentido, a autora afirma que * Centro de Educação e Letras, Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) (Foz do Iguaçu – PR/Brasil). ** Trabalho apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, na forma de bolsa de extensão tecnológica. 1 Não é objetivo central aprofundar a temática. Para dados acerca do ensino superior no Brasil, o artigo de Pinto (2004) é bastante esclarecedor.