22 IPOTESI, JUIZ DE FORA, v.23, n.1, p.22-31, jan./jun. 2019 REPRESENTAR OU RE(A)PRESENTAR 1 : AS REPRESENTAÇÕES IDENTITÁRIAS SOB AS PERSPECTIVAS FEMINISTA E PÓS-COLONIAL Gabriela de Souza Pinto * Nícea Helena de Almeida Nogueira ** RESUMO: Este artigo tem como objetivo discutir questões pertinentes à representação identitária literária de grupos minoritários, especialmente mulheres e sujeitos colonizados ou provenientes de contextos pós-coloniais. Além disso, objetiva-se também constatar e elucidar a significativa relação entre a forma como essa representação acontece e as agendas de empoderamento e de criação de novas vozes e subjetividades, em voga nas críticas feminista e pós-colonial. Palavras-chave: Identidade. Crítica feminista. Crítica pós-colonial. Introdução Susana Funck (2011) aponta que tanto a crítica feminista quanto a pós-colonial tem recentemente se ocupado do empoderamento de grupos tradicionalmente subalternos e da criação de novas subjetividades que permitam ao indivíduo se constituir como sujeito dotado de voz e representatividade. Para ela, o conceito de representação vem assumindo nos últimos tempos um significado muito mais complexo, uma vez que com a utilização do discurso passa a fazer parte do processo de construção das identidades e das relações do poder. É por essa razão que a literatura enquanto um campo discursivo tem sido questionada e revisitada, tornando-se, pois, local de questionamentos e lutas políticas. Stuart Hall (2001) afirma que as identidades (nacionais e individuais) podem ser (trans)formadas a partir da representação, enfatizando que as conquistas realizadas pelo império suprimem os costumes, a língua e a tradição de um povo, na tentativa de “impor uma hegemonia cultural mais unificada” (p. 60). Para Linda Hutcheon (1997), o discurso pós-colonial e o feminista se encontram no pressuposto de que ambos atuam reivindicando e afirmando novas subjetividades, anteriormente negadas e silenciadas. Ambas trabalham para o deslocamento do centro de poder, no sentido colocado por Ernest Laclau (1990 apud HALL, 2001) em que o centro, ao ser deslocado, não é substituído por um único outro, mas, sim, por uma “pluralidade de centros no poder”. No âmbito das duas teorias aqui trabalhadas podemos apontar, historicamente, a dominação da narrativa identitária dos grupos oprimidos (mulheres e colonizados) realizada pelo opressor e institucionalizada por um cânone excludente instituído e perpetuado por grande parte da tradição literária mundial. Tanto o feminismo quanto o pós-colonialismo apresentam um ímpeto revisionista que vai ao encontro da proposta de Virginia Woolf, em Um teto todo seu (1929), de romper com a tradição de narrativas hegemônicas para que se possam encontrar 1 Embora tenhamos utilizado nesta pesquisa a tradução de Can the subaltern speak?, de Gayatri Spivak, feita por Sandra Regina Goulart de Almeida, Marcos Pereira Feitosa e André Pereira Feitosa, na edição da UFMG, faremos uso do termo “re-(a)presentar”, que acreditamos elucidar melhor a leitura que propomos desse conceito. * Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Letras: Teoria Literária e Crítica da Cultura, pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Professora de Língua Portuguesa e Inglesa no Ensino Básico, Técnico e Tecnológico do Instituto Federal Sudeste de Minas Gerais, Campus Barbacena, Minas Gerais. E-mail: gabrielaspsp@yahoo.com ** Professora adjunta da Faculdade de Letras e Coordenadora do PPG Letras: Estudos Literários, da UFJF. Pós- doutora pelo PPG Memória e Acervos da Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro. Doutora e Mestre em Letras: Teoria da Literatura, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), Campus de São José do Rio Preto, SP. Graduada em Letras: Inglês pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), PR. E- mail: nicea.nogueira@ufjf.edu.br