Vias da pátria: a mudança na lógica de nomeação das ruas em Lima RAFAEL DIAS SCARELLI* Cidades das homenagens Desde princípios do século XIX, as cidades se converteram num espaço privilegiado para o estabelecimento de homenagens, na denominação de suas ruas, praças e parques, e na edificação de monumentos públicos, desde discretos bustos até imponentes estátuas equestres. Explorando a necessidade de se conhecer o nome das ruas para o deslocamento no espaço urbano, os Estados Nacionais transcreveram sobre elas o panteão de heróis nacionais. Através da solidez do mármore e do bronze dos monumentos, buscaram dar materialidade aos símbolos pátrios, solidificando também a própria identidade nacional. Procuraram, assim, trazer ao cotidiano das massas urbanas a noção ainda difusa de “nação”, pondo-a ao alcance dos sentidos. A cidade, convertida numa “lección pública de historia” (GUTIÉRREZ, 2004: 9), completaria o ensino escolar dando-lhe referenciais visíveis, o que Ricardo Rojas sintetiza na fórmula “pedagogía de las estatuas” (ROJAS, 1910/1971: 139). Esta cidade das homenagens, porém, não se escrevia sobre uma folha em branco: chocava-se com dinâmicas já vigentes de nomeação e vivência no espaço urbano, e não se impôs sem enfrentar resistências. Percorrendo esse terreno, o presente artigo abordará a modificação dos nomes das ruas da cidade de Lima, capital do Peru, através da reforma municipal de 1861, que alterou a designação de todas as vias da cidade, que compunham o chamado Damero de Pizarro 1 . Nosso olhar se direcionará à antiga nomenclatura das ruas, à instituição dessa reforma e à recepção dela por parte dos moradores e transeuntes, à medida que a mesma sofreu uma prolongada resistência dos usuários, moradores e transeuntes. * Mestrando do Programa de História Social da Universidade de São Paulo, com financiamento da agência FAPESP. 1 Traçado fundacional de Lima na composição de quadrícula, formado por 13 quarteirões de longitude e 9 quarteirões de latitude, encerrados dentro das antigas muralhas da cidade (GUNTHER e LOHMANN, 1992: 63-64). Após a demolição das muralhas, concluída no início da década de 1870, Lima rapidamente se expandiu, através da abertura de novas vias de tráfego, em direção aos balneários do sul (Chorrillos e Miraflores) e ao Puerto del Callao (HUAPAYA, 2009: 204). Este artigo, porém, ocupar-se-á apenas da nomenclatura das ruas da “cidade antiga”, antes de sua expansão espacial.