A forma panorama e os desejos de memória e de origem na recriação de as 'Bodas em Canã' (1562-63), de Paolo Veronese, promovida por Peter Greenaway, na Bienal de Veneza de 2009. Denise Costa Lopes Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), Brasil Abstract The longing for a haven where memories can dwell, motivated by the increasing compression of our space- time and the possibility of reconfiguring the notion of artwork's origin _ as a consequence of the potential of technical reproducibility in the digital age _, are currently responsible for a permanent reappropriation of past pictorial representations and the illusionistic character of early cinema. As a result of the new audiovisual technologies, which have problematized the relation between painting and cinema, “panoramic installations” privilege immersion and interactivity with a participant, a co-author. Peter Greenaway is one of the filmmakers that work nowadays on this healthy frontier, updating the cinematographic apparatus, especially in its perceptive conditions of aesthetic fruition and new possibilities of processes of subjectivation. Keywords: Cinema, Painting, Panorama, Memory, Origin Introdução Figura 1 – As bodas em Canã (1562-63), Paolo Veronese. Pintura a óleo, 677 x 994 cm. Museu do Louvre, Paris. Disponível: http://www.wga.hu/art/v/veronese/06/2cana.jpg. Acesso: 19/02/16. Experiências audiovisuais fronteiriças de releituras ou reincorporações de técnicas pictóricas passadas e de práticas apagadas do chamado pré-cinema, possíveis graças a avançados recursos tecnológicos das mídias atuais, acabam por recriar obras e induzir novas relações perceptivas de fruição estética e de construções de subjetividades. Esses eventos imagéticos demandam um espectador altamente ativo, “participador” 1 , um interator, leitor-usuário ou usuário- autor, que, imerso, interage com o que o envolve sensorialmente, como que colocado dentro de uma realidade simulada por esses campos de força, e não mais diante de uma imagem que reproduz essa realidade. A experiência-resposta desse usuário-autor ou coautor é o ponto central dessas obras. Nessa busca por um ponto de fuga capaz de produzir novos processos de subjetivação a partir da fruição espectatorial, as instalações panorâmicas interativas se potencializam. A monumentalidade e multidimensionalidade do ambiente virtual panorâmico, que convivem lado a lado com a minituarização das coisas que nos cercam, respondem a um desejo de memória, de retorno ao passado, a fim de “garantir alguma continuidade” (HUYSSEN 2000, 30) diante da crescente capacidade de compressão e fragmentação do espaço-tempo das novas mídias. Ao recorrerem ao passado como contraponto, questionam ao mesmo tempo a noção de origem, e perseguem, em alguma medida, uma nova legitimidade para essas novas obras desterritorializadas. Obras que, segundo Walter Benjamin, teriam perdido suas “auras”, após sucessivos reprocessamentos e transmutações, num emaranhado veloz e feroz de reprodutibilidades múltiplas. Voltar às formas de representação pictórica de séculos passados, em especial às profundas transformações promovidas pelo Renascimento, expondo e realocando seus estatutos de fundação a partir de possibilidades tecnológicas oferecidas pela atual era da cadeia de Silício, possibilita alimentar uma visão de futuro potente, capaz de “estabelecer continuidades entre os múltiplos extratos históricos” (PARENTE 2009, 23) da trajetória da construção das capacidades enunciativas, figurativas e perceptivas da imagem, bem como dar visibilidade a manifestações “encobertas e/ou recalcadas” pela forma dominante do que ficou conhecido e institucionalizado como “O cinema”. As problematizações espaciais da pintura hoje, tanto na “forma cinema”, quanto no que vem sendo identificado como um “transcinema”, cumprem um papel importantíssimo na reinvenção do dispositivo cinematográfico e na atualização da teoria do cinema,