ESCREVER O AFETO: SOBRE Not I, DE SAMUEL BECKETT Mario Sagayama 1 Resumo Neste ensaio, busca-se fazer uma leitura de um dos experimentos mais potentes de Samuel Beckett: a peça Not I (1973 para a edição inglesa, e 1974 para a edição francesa). Leitura esta que se orienta pela teoria da voz de Jacques Lacan, para quem a voz era um objeto pulsional, o que permite elaborar de modo singular a relação entre linguagem e corpo. Palavras-chave: Samuel Beckett, Teatro, Psicanálise, Voz. Passados quase vinte anos da morte de Samuel Beckett (1906-1989), sua obra, cujo momento emblemático data da metade do século passado, ocupa hoje lugar fundamental no cânone da literatura europeia. Notoriedade esta que faz nossa leitura ser sempre atravessada pelos olhares mais diversos que sobre sua obra repousaram – indo da teoria crítica de T.W. Adorno ao pós-estruturalismo de Gilles Deleuze, para ficar com dois de seus maiores admiradores. Em meio à miríade de perspectivas que atravessam seus escritos e encenações, minha leitura busca contribuir com o pensamento crítico sobre uma de suas formulações mais singulares: a voz. Neste ensaio, apresento de forma resumida minha contribuição para o pensamento sobre a voz em Beckett, a partir da psicanálise lacaniana, em uma de suas peças mais instigantes, Not I (1973), que cito, aqui, a partir da tradução francesa, feita pelo autor, Pas moi. 2 Das diversas leituras sobre a vocalidade em Beckett, apenas um estudo monográfico parte da psicanálise: Beckett, Lacan and the voice, de Llewellyn Brown, lançado em 2016, período em que eu finalizava minha dissertação de mestrado, Ele fala de si como de um outro: Samuel Beckett e o objeto voz. 3 Assim, a leitura que apresento abaixo será, provavelmente, ainda revista e desdobrada por críticos e psicanalistas que 1 Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada (DTLLC/FFLCH-USP), e graduação (Português- Francês) na mesma instituição. 2 É corrente, na crítica beckettiana, que se trabalhe com obras do autor em ambas as línguas nos casos em que o próprio autor as tenha traduzido, o que faz de cada tradução um “outro original”. In: SOUZA, Ana Helena. A tradução como outro original – Como é de Samuel Beckett. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006. 3 Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-23062017-134505/pt-br.php. Último acesso em 22/08/2017.