471 Carta ao Editor / Letter to Editor Hemoglobinas variantes em doadores de sangue do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Estado do Piauí (Hemopi): Conhecendo o perfil epidemiológico para construir a rede de assistência Hemoglobin S variants in blood donors of the Hematology and Hemotherapy Center of the state of Piauí (Hemopi): Understanding the epidemiological profile to create a support network REVISTA BRASILEIRA DE HEMATOLOGIA E HEMOTERAPIA REVISTA BRASILEIRA DE HEMATOLOGIA E HEMOTERAPIA às Pessoas com Doença Falciforme e outras Hemoglobino- patias. 3 Indivíduos que apresentam a hemoglobina S em homo- zigose (SS) evidenciam uma condição grave da doença, enquanto indivíduos com a hemoglobina S em heterozigose (AS) não apresentam manifestações clínicas, não conferindo qualquer risco ao seu portador. 4,5,6 A Organização Mundial da Saúde estima em aproxi- madamente 270 milhões de pessoas com hemoglobinas variantes. Na África Equatorial, 40% da população é portadora do gene em heterozigose, já a doença atinge uma prevalência de 2% a 3%. No Brasil, a anemia falciforme acomete de 0,1% a 0,3% da população negra, com tendência a atingir parcela cada vez mais significativa da população, devido ao alto grau de miscigenação em nosso país. De fato, estudos popula- cionais têm demonstrado a crescente presença de hemo- globina S em indivíduos caucasoides. 7 No estado do Piauí, em pesquisa realizada entre os estudantes do curso de Farmácia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), foi constada a prevalência de 3,0% do traço falciforme. Estudos realizados em três comunidades quilom- bolas na região de Paulistana-PI observaram a presença de 8,0% do traço falciforme. 8,9 Apresentamos aqui os resultados de um estudo sobre a frequência de hemoglobinas variantes, no período de dezembro de 2007 a abril de 2008, em mil doadores voluntários de sangue do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Piauí – Hemopi. Os sujeitos da pesquisa concordaram em participar do presente estudo, previamente aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Novafapi, sob o número 0176.0.043.000-07. As amostras foram coletadas, de forma aleatória, em tubos de 5 mL contendo EDTA, e as análises realizadas por eletroforese em pH alcalino, usando fitas de acetato de celulose. Foram submetidas à eletroforese em pH ácido, para diferenciação de hemoglobinas que correm em posições similares. Os testes foram realizados sob corrente elétrica de 300w. A confirmação dos testes foi por análise molecular. 10 Das mil amostras analisadas, 3,9% apresentaram o traço falciforme, sendo 3,4% na forma AS e 0,5% na forma AC (Figura 1), confirmando uma variação de 2% da prevalência média de portadores do traço falciforme no Brasil, que pode aumentar de acordo com a região e a etnia da população analisada. 11 Estudos realizados em doadores de Pernambuco (Hemope) evidenciaram 3% do traço falciforme. 12 No Rio Grande do Norte, a prevalência foi de 2,22% do traço falciforme em 630 doadores. 13 O traço falciforme no Brasil é uma característica genética levando-se em conta a grande miscigenação e a significativa presença da população afrodescendente. 14 O estado do Piauí, berço dos primeiros indícios de vida nas Américas, apresenta-se, segundo o censo IBGE 2000, como o quarto estado com população negra autodeclarada, dispondo de poucos indicadores relativos à herança genética da hemoglobina S. Apresentamos nestas breves e signifi- cativas notas o estudo das hemoglobinas no estado do Piauí, contribuindo para a educação em saúde dos doadores do Hemopi frente aos aspectos da herança genética da hemo- 1 Farmacêutico bioquímico. Prof. da Disciplina Hematologia Clínica do Curso de Farmácia da Universidade Federal do Piauí- UFPI. 2 Farmacêutico bioquímico. Prof. da Disciplina Imunologia Clínica do Curso de Farmácia da Universidade Federal do Piauí- UFPI. 3 Farmacêutico bioquímico – Hemopi 4 Farmacêutico bioquímico. 5 Aluno do Curso de Farmácia da Universidade Federal do Piauí - UFPI. 6 Bióloga. Profa. responsável pelo Laboratório de Hemoglobinas e Genética das Doenças Hematológicas (LHGDH) - IBilce - Unesp. Leonardo F. Soares 1 Evaldo H. Oliveira 2 Iraildo B. Lima 3 José M. Silva 4 Jônathas T. Mota 5 Claudia R. Bonini-Domingos 6 Sr. Editor Considerada a afecção genética de maior prevalência mundial, a anemia falciforme possui uma elevada frequência em países africanos. O gene da hemoglobina S tem alta frequência em toda a América, e no Brasil é mais frequente nas regiões sudeste e nordeste, observando-se uma distri- buição heterogênea, sendo esta doença considerada um problema de saúde pública. 1 Estudos epidemiológicos sobre a doença falciforme no Brasil são restritos a algumas regiões; até meados dos anos 90 não existia qualquer programa oficial de saúde pública voltado para aqueles indivíduos com anemia falciforme. 2 Consolidando uma fase de iniciativas dos movi- mentos sociais e da academia, em 16 de agosto de 2005 foi publicada a Portaria de nº 1.391, que institui no âmbito do SUS as diretrizes para a Política Nacional de Atenção Integral