1 SUPOSIÇÕES-EIXO, ATITUDES PROPOSICIONAIS E A ESTRUTURA DA AVALIAÇÃO RACIONAL Tiegue V. Rodrigues (vindouro em Epistemologia dos eixos - Uma introdução e debate sobre as certezas de Wittgenstein, Nara Figueiredo e Plínio Smith (Orgs), a ser publicado pelo journal Scientiae Studia.) RESUMO: Existem, na tradição acadêmica, diferentes interpretações para o termo “eixo” (“hinge”) – como utilizado por Wittgenstein em sua obra póstuma “Da Certeza” – resultando em diferentes teorias acerca do seu papel epistemológico. Neste texto, eu contemplo a abordagem proposta por Duncan Pritchard, no que diz respeito à sua interpretação e utilização desse conceito enquanto uma tentativa de responder a uma forma de ceticismo radical baseado no princípio de fecho epistêmico. Mais precisamente, argumentarei que não está claro o papel não epistêmico, sui generis, sugerido para tratar as atitudes proposicionais entendidas como “eixos”. Nossa análise, se correta, implica na inadequação da resposta de Pritchard ao argumento cético. Além disso, argumentarei que sua abordagem (bem como as dos demais epistemólogos dos eixos) não está adequadamente baseada na proposta apresentada por Wittgenstein. Mais especificamente, que Pritchard ignora um aspecto essencial da proposta wittgensteiniana, a saber, o fato de que as proposições-eixo não são invocadas para explicar o conhecimento em geral, mas para possibilitar a investigação científica sistemática. 1. Introdução É possível encontrarmos na tradição acadêmica diferentes interpretações para o termo “hinge” – como utilizado por Ludwig Wittgenstein (LW) em sua obra póstuma “Da Certeza” (On Certainty) 1 – resultando em diferentes teorias acerca do seu papel epistemológico. 2 Neste ensaio, eu opto por contemplar uma leitura particular que chamarei de antidoxástica, proposta originalmente por Duncan Pritchard. Em seu ambicioso e instigante livro “Epistemic Angst” (Princeton University Press, 2016), Pritchard desenvolve uma teoria que visa fornecer uma solução para o ceticismo radical, ou seja, o problema do ceticismo acerca do mundo exterior. 3 Sua resposta para esse tipo de ceticismo é, como ele próprio sugere, bifurcada, e visa enfraquecer o tratamento de 1 WITTGENSTEIN (1969). 2 Para diferentes abordagens veja Kusch (2016), Pritchard (2012), (2015) e (2016), Williams (2001) e (2004), Moyal-Sharrock (2004) e (2016), Stroll (1994) e (2005). 3 Para discussão sobre ceticismo radical veja PRITCHARD (2005).