15 Fascismo social e pautas feministas: construindo parâmetros para a intensidade da democracia brasileira Maíra Kubík Mano 1 Introdução Nos últimos anos, temos visto “gênero” tornar-se uma palavra cada vez mais em disputa. Não se trata, porém, de um processo que ocorre dentro da arena em que esse termo se desenvolveu. Do início relutante de sua utilização na academia brasileira – afnal, tratava-se de uma importação da língua inglesa sem uma tra- dução que abarcasse todos os seus sentidos – até a posterior assimilação pelos movimentos de mulheres, feministas e LGBTIQs, foi um longo percurso. Mas após décadas de expansão e questionamentos, e justamente quando o vocabulário se tornava cada vez mais fuido e adotado em diferentes esferas, das liberais às radi- cais, surgiu um enfrentamento contundente e distinto a respeito de seu signifcan- te: aquele travado com os conservadores. A política institucional tem sido, nesse sentido, um dos campos privilegia- dos dessa batalha. Neste artigo, apresentaremos resultados preliminares da pesqui- sa “Gênero em disputa: mapeamento e análise do Legislativo”, em que investiga- mos as disputas estabelecidas em torno das expressões de gênero e sexualidade no âmbito dos Planos Estaduais de Educação (PEEs) quando de sua tramitação pelas Assembleias Legislativas (ALs), durante os anos de 2015 e 2016. Estabelecemos como objetivo geral verifcar se a maior participação da so- ciedade civil na política institucional resultaria em uma ampliação da democracia em relação às diversidades e aos direitos difusos ou coletivos. E como objetivos es- pecífcos, a) Analisar a atuação das mulheres enquanto um dos grupos de interesse envolvidos; b) Analisar possíveis diferenças regionais; c) Construir um mapea- mento dos posicionamentos do Poder Legislativo brasileiro a respeito da inclusão ou exclusão da perspectiva de gênero. Optamos por delimitar o campo às Assembleias Legislativas (26 mais a Câ- mara Distrital), devido à impossibilidade quantitativa de analisar os municípios 1 É Doutora em Ciências Sociais (Unicamp), professora do Departamento de Estudos de Gêne- ro e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPFGNEIM). É pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM/UFBA). Essa pesquisa foi contemplada no edital “Jovens Doutores” (UFBA/MCTI). Agradeço a contribuição das bolsistas Bárbara Santana de Souza e Stephanie Nascimento. miolo - feminismos em rede.indd 15 31/10/2018 17:06:31