ISSN 1517-5901 (online) POLÍTICA & TRABALHO Revista de Ciências Sociais, nº 53, Junho/Dezembro de 2020, p. 72-89 DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO, SEPARAÇÃO E HIERARQUIZAÇÃO: contribuições para a análise do gênero das democracias SEXUAL DIVISION OF LABOR, SEPARATION AND HIERARCHY: contributions to the analysis of the gender of democracies ____________________________________ Flávia Biroli * Débora Françolin Quintela ** Resumo Danièle Kergoat e Helena Hirata defnem a divisão sexual do trabalho como fundamento das relações sociais de sexo. Informado pela produção das autoras, este artigo analisa como os princípios regentes dessa divisão, o da separação – existem trabalhos de homens e de mulheres – e o da hierarquia – trabalhos de homens possuem maior valor social – produzem a dualidade entre esfera pública e doméstica. Observa-se, especialmente, a relação entre a divisão sexual do trabalho e a participação das mulheres na política, esfera ainda predominantemente masculina. São centrais para esta análise os conceitos de consubstancialidade e coextensividade, assim como o entendimento das autoras de que deslocamentos nas relações intersubjetivas não apontam necessariamente para processos de emancipação – os quais são necessariamente coletivos. Partindo dessas compreensões, a divisão sexual do trabalho e o gênero das democracias são analisados também por dados do contexto brasileiro. O artigo conclui que a) a divisão sexual do trabalho tem sido atualizada e não superada; b) ela é o fundamento dos obstáculos reiterados à participação política das mulheres; c) os confitos em torno das demandas por participação permitem analisar a complexidade da dinâmica de dominação, composta por resistências e violência. Este trabalho corrobora a necessidade de se superar o “paradoxo de que tudo muda, mas nada muda”, analisando os “nós” da dominação em termos de gênero, classe e raça e evidenciando seu caráter móvel e confitivo. Em um contexto de politização das desigualdades de gênero, os confitos, resistências e renegociações, que constituem a dominação, se movem e se recolocam. Palavras-chave: Divisão sexual do trabalho. Relações sociais de sexo. Participação política. Democracia. Abstract Danièle Kergoat and Helena Hirata defne the sexual division of labor as the foundation of social relations of sex. Informed by the authors’ production, this article analyzes how the governing principles of that division, that of separation - there are men and women jobs - and the hierarchy - men jobs have greater social value - produce the duality between public and domestic spheres. It is highlighted the relationship between the sexual division of labor and the participation of women in politics, a still predominantly male sphere. Te concepts of consubstantiality and coextensivity, as well as the authors’ understanding that shifs in intersubjective relationships do not necessarily point to emancipation processes - which are necessarily collective – are central to this analysis. Based on them and informed by data from the Brazilian context, the sexual division of labor and the gender of democracies are analyzed. Te article concludes that a) the sexual division of labor has been updated, not overcome; b) it is the foundation of the repeated obstacles to women’s political participation; c) the conficts over the demands for participation allow us to analyze the complexity of the domination dynamics, composed of resistance and violence. Tis work corroborates the need to overcome the “paradox that everything changes, but nothing changes”, analyzing the “knots” of domination in terms of gender, class and race and highlighting its mobile and conficting character. In a context of politicization of gender inequalities, conficts, resistances and renegotiations, which constitute domination, move and replace themselves. Keywords: Sexual division of labor. Sex social relationships. Political participation. Democracy. ** Professora associada do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL-UnB) e pesquisadora do CNPq. E-mail: faviabiroli@gmail.com ** Doutoranda do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL-UnB). Mestra em Ciência Política pela mesma instituição. E-mail: deborafrancolin@gmail.com