Artigo Original http://dx.doi.org/10.5007/1807-9288.2016v12n1p20 Esta obra está licenciada com uma licença Creative Commons. Texto Digital, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, v. 12, n. 1, p. 20-26, jan./jun. 2016. ISSNe: 1807-9288. 20 JOSÉ-ALBERTO MARQUES: O POEMA CONTRA A IMUTABILIDADE ESTÁTICA Rogério Barbosa da Silva * RESUMO: Leitura de Homeóstatos, de José-Alberto Marques, buscando demonstrar em sua composição o processo dinâmico da escrita poética, a qual atribui ao poema o sentido de um corpo vivo. Ressalta-se que, nesse processo poético, o poeta reinventa a tradição, expondo o poema como um fazer estético-crítico. Para isso, lemos os poucos textos críticos do poeta em contraste com sua poesia e com textos fundamentais para se pensar a poesia experimental, como os de E. M. de Melo e Castro, sobre o poeta e a poesia experimental portuguesa; de Haroldo de Campos, sobre sincronia e diacronia; e de Alberto Pimenta, sobre a poetografia, como elemento de afirmação autônoma do poema perante as tradições líricas. Palavras-chave: Homeóstatos. José-Alberto Marques. Poesia Experimental Portuguesa. Sem lentes os olhos perdiam-se na lenta pesquisa da natureza dos nenúfares por enciclopédias e oceanos (MARQUES, 2011, p. 11) Conforme nos lembra Melo e Castro, a propósito de Homeóstatos, “homeostasia é constituída pelos mecanismos biológicos de conservação de um ambiente interno constante” (CASTRO, 1995, p. 190). No mesmo texto, Castro ressalta que, nessa série de poemas visuais létricos, o processo de decomposição do verso espacialmente na página e a reorganização dos signos reconstituem o “ambiente interno do organismo vivo que é o poema” (CASTRO, 1995, p. 190). Ainda que alguns dos poemas dos dez Homeóstatos apresentem ou a reconstituição do verso inicial, ou uma estrutura frásica em verso, não é bem essa reconstituição estrutural do verso que nos permitirá enxergar a permanência do poema. Não é uma questão apenas da desintegração e da reconstituição sintática essa ideia da permanência. O que parece importar ao poeta é a poesia em si. Talvez, por isso, a permanência seja aquilo que nos permite identificar a matéria viva do poema enquanto * Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Brasil. E-mail: rogeriobsilvacefet@gmail.com