1 MORENO, J. C. POR TEXTOS E CONTEXTOS: IDENTIDADE E APRENDIZAGEM HISTÓRICA. In: Ana Heloísa Molina; Carlos Augusto Lima Ferreira. (Org.). Entre textos e contextos: caminhos do ensino de História. 1ed.Curitiba: CRV, 2016, v. 01, p. 449-470. POR TEXTOS E CONTEXTOS: IDENTIDADE E APRENDIZAGEM HISTÓRICA Jean Carlos Moreno 1 Os outros: o melhor de mim sou eles . Manoel de Barros, Livro Sobre Nada. Era um curso de formação continuada para professores de História da Educação Básica. Uma turma heterogênea em sua formação e trajetória docente. Alguns mais jovens, com cerca de dez anos de experiência, outros com mais tempo de formação e atuação, próximos ao limite para aposentadoria por tempo de serviço. O ministrante, que já havia trabalhado um bloco sobre Teoria e Didática do Ensino de História, voltava, após certo tempo, agora para abordar outra temática. Depois de cumprimentar e conversar individualmente com alguns colegas, com cerca de dez minutos de atraso, o ministrante se põe em posição para iniciar o trabalho à frente de uma tela com o título do curso: “Ensino de História e Educação para as relações étnico-raciais”. Após o “bom dia a todos”, levanta a mão uma professor a e imediatamente exclama: “Mas eles também nos escravizaram”. Acostumado com algumas polêmicas sobre o tema, mas atônito pela surpresa logo de início, o responsável pelo curso responde simplesmente: “não entendi”. A professora rapidamente conclui: “eles n os escravizaram antes. Num curso anterior o professor nos disse que no Egito eram todos pretinhos e eles nos escravizaram”. O episódio pode parecer pitoresco. Mas propomos levar a situação a sério. No caso, a professora identificava-se com os hebreus da Antiguidade numa história narrada por um viés religioso e etnocêntrico. Neste entendimento, ela, identificada como uma legítima descendente dos hebreus no mundo contemporâneo, justificava a escravização dos legítimos descendentes do Egito Antigo, na América dos séculos XVI ao XIX, como uma legítima vingança ou contrapartida histórica. A situação, assim explicitada, pode parecer exagero, mas revela os meandros da autocompreensão identitária, os malabarismos que o pensamento histórico pode fazer, mesmo em se tratando de 1 Doutor em História Social. Líder do Grupo de Pesquisa Ensino de História (UENP).