2 APONTAMENTOS SOBRE A HISTÓRIA DO LIVRO NO BRASIL: Uma aventura pelos anos de 1930 a 1950 Marília de Araujo Barcellos A partir de questões que correspondem a um maior entendimento da vida e da história pertencentes ao sistema literário de um país, pode-se desenvolver e compreender melhor a expressão cultural de uma nação. Daí a pergunta: como estudar literatura sem perceber a existência de um sistema que, em meio a toda uma multiplicidade, envolve tantos fatores em seu campo, sem se realizar uma reflexão, sem voltar um olhar para aqueles que, com sua atuação, colaboraram para a formação de tal sistema? Resta reservar um espaço de discussão na academia para reacender o debate sobre tais questões. Compreender a cultura nacional pressupõe, dentre outras coisas, investigar a literatura escrita e publicada no Brasil. A história do livro e dos elementos que compõem o sistema literário pressupõe o entendimento de muitos aspectos, dentre esses, a inserção do estudo da materialidade do livro que se encontra na literatura e seu suporte, no contexto ao qual atuam os agentes envolvidos na produção da literatura etc. Em suma, na existência de elementos extraliterários que contribuem para a formação de tal sistema e que constituem o campo literário brasileiro. Regina Zilberman, ao abordar o tema, aponta para a importância da equivalência entre leitura, livro e literatura, no sentido de atribuir ao suporte uma materialidade e aferir ao autor o direito de propriedade o livro é fruto de um trabalho coletivo e [...] começa com o responsável pelo texto verbal, mas pressupõe o empresário e o editor, a que se somam revisores, capistas, ilustradores, tradutores, cada um convocado num dado momento da produção; depois de pronta a obra, interferem distribuidores e livreiros (Zilberman, 2001: 109). no qual acrescentaria a recepção com o consumidor; público leitor comum e a crítica especializada, quando se reúnem acadêmicos, intelectuais e jornalistas. Os estudos sobre a história do livro no Brasil são muitos, alguns apontam para personalidades marcantes e instigantes como Monteiro Lobato e Ênio Silveira, dentre tantos outros; tais investigações levam ao estudo de práticas de leitura e da escrita e induzem à formação da história do livro. Algumas vezes as pesquisas percorrem a história da leitura, outras, voltam-se para a indústria e para o mercado editorial, é nessa última vertente que vamos atuar. Pouco se comenta sobre a relevância de Érico Veríssimo como editor e agente mediador literário, mas foi através da Editora Globo e do trabalho elaborado a partir da década de 30, com uma equipe de profissionais considerável, que essa editora abriu uma fatia no mercado para literatura estrangeira e para novos papéis como o campo da tradução. Cabe registrar a evolução do escritor como profissional do livro, porque se constata que Érico Veríssimo exerceu diferentes posições no campo literário, o que comprova sua capacidade de atuar em múltiplas frentes, seja como editor, autor, tradutor e até mesmo como conselheiro sentimental, conforme ocorreu, por exemplo, durante sua participação na Revista do Globo. Em virtude dessa múltipla competência, sua atividade profissional viabilizou seu meio de sustento e subsistência, situação rara entre os escritores do período o que torna a posição de Érico Veríssimo paradigmática. O presente texto aponta para as relações do sistema literário a partir da atuação do escritor Érico Veríssimo como profissional e intelectual das letras, entre os anos de 1930 a 1950 como editor da Secção Livraria do Globo. O trabalho em comunhão com o editor Henrique Bertaso, em conjunto com o grupo de profissionais que ali se encontrava, resulta na inserção da Globo entre as maiores editoras do país. Henrique Bertaso oportunizou um ambiente de profissionalismo e confiança na empresa e Érico Veríssimo soube acolher os ideais desse empreendedor. Ao lidar com as traduções, torna-se, dessa forma, um mediador de 10.17771/PUCRio.escrita.6181