1 Parte 3: O Desenvolvimento dos assentamentos rurais e o caso das Comunas da Terra. “Nós, o povo, não temos o direito de escolher o tipo de cidade que vamos habitar” David Harvey Se existe algo de inspirador no MST, é certamente a capacidade de criação, de ousadia na construção coletiva. Seja a construção de uma mística* 1 , seja a construção de uma Marcha Nacional na qual doze mil pessoas caminham juntas construindo, desconstruindo e voltando a construir, um acampamento/cidade durante dezessete dias. Outras ousadias são menos visíveis. A ousadia de cada ocupação, a ousadia de gerar a consciência, a ousadia de construir propostas que vençam as dificuldades encontradas nesse longo caminho, que já conta com mais de vinte anos de existência. As dificuldades encontradas nos assentamentos são inúmeras: falta de infra- estrutura; impossibilidade de se agregar valor à produção; dificuldade na comercialização devido à falta de processamento e dependência dos “atravessadores”; dificuldade no acesso aos créditos; carência de assistência técnica; difícil acesso aos estudos; êxodo da população jovem, entre tantas outras dificuldades. As causas dessas dificuldades às vezes são externas, isto é, estruturais. Às vezes são internas, ou seja, fruto das próprias contradições. Ciente disso, o MST está continuamente avaliando suas estratégias, pensando novas táticas, construindo novos projetos. Numa longa caminhada de erros e acertos ele vai construindo a luta pela Reforma Agrária. É movido por esse processo, que o MST tem se voltado à discussão acerca das Novas Formas de Assentamento que possam lidar com todas essas dificuldades. Essa discussão faz parte da nova concepção acerca da reforma agrária. Como temos visto, as Comunas da Terra surgem não apenas da necessidade de se pensar novas formas de assentamentos, mas de se construir uma alternativa para a população espoliada dos grandes centros urbanos. Nasce também da 1 Mística pode ser entendida como uma prática social presente no MST que surge com as celebrações litúrgicas mas que não fica restrita ao sentido religioso e se transforma numa forma de manifestação coletiva de sentimentos, através do teatro, da dança, da poesia, da música enfim, da arte. A mística cria a unidade na luta. Ela faz com que as pessoas se identifiquem naquela celebração como fazendo parte de um todo.