DOSSIÊ História oral, memórias e campesinato negro/mestiço na Bahia pós-abolição Edinelia Maria Oliveira Souza* O passado só se deixa fxar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido. [...] Irrecuperável é cada imagem do passado que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela. Walter Benjamin Sobre história oral e a utilização das memórias Foi a partir dos anos 90 que a historiografa sobre o pós-abolição tomou novas proporções no Brasil, por meio de estudos que tinham como foco as áreas escravistas do Centro-Sul. Tais estudos se propuseram a analisar a luta política que se estabeleceu em torno de um “projeto camponês” asso- ciado às condições políticas de acesso a terra e de garantia de sobrevivência, mediante a abertura da “fronteira agrária” na região. Dadas as “difculdades de reter na grande lavoura a chamada ‘mão-de-obra livre nacional’”, nas décadas seguintes à abolição, “paralelamente à formação de um campesinato negro, manteve-se a centralidade do liberto, enquanto força de trabalho, nas fazen- das das antigas áreas escravistas do sudeste” (Rios; Mattos, 2004, p. 172). * Professora da Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em História Regional e Local na Universidade do Estado da Bahia (UNEB).