Artigo Fractal: Revista de Psicologia, v. 27, n. 1, p. 44-49, jan.-abr. 2015. doi: http://dx.doi.org/10.1590/1984-0292/1354 O objetivo deste texto é apresentar nosso grupo e as perspectivas teóricas e metodológicas que norteiam nossas pesquisas. O Grupo de Estudos e Pesquisa em Psicologia Histórico-Cultural na Sala de Aula (GEPSA) foi forma- do em 2006 na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, sob a liderança da professora doutora Maria de Fátima Cardoso Gomes, com o objetivo de desenvolver estudos, pesquisa e extensão sobre lingua- gem, discurso, cognição social, cultura e inclusão na sala de aula. Desde então, parcerias com diversos pesquisado- res, nacionais e internacionais, tem sido consolidada. A questão norteadora dos nossos estudos é “como nos apropriamos do mundo?”. Tal questão se desdobra em outras, mais específcas: “como estudantes e professo- res transformam atividades de leitura, escrita e cálculos em funções mentais, em desenvolvimento mental e cultural?”; “como esses sujeitos constroem os eventos de leitura e escrita?” e “quais sentidos e signifcados são construídos para esses eventos?”. A perspectiva teórico-metodológica que adotamos tem sua base na psicologia histórico-cultural. Compreen- demos que o desenvolvimento individual, ou a apropria- ção da realidade, é construído na relação dialética entre as pessoas, crianças e adultos, que acontece nos níveis interpessoal e intrapessoal. Para Vigotski (1993[1934]), o sujeito é social e se individualiza ao apropriar-se do mundo, que é externo ao sujeito. Angel Pino (2000) de- fende que esse processo de individualização pode ser compreendido como aquele em que o indivíduo torna- -se humano e desenvolve sua subjetividade, ou seja, toda função psicológica foi anteriormente uma relação entre pessoas. Dessa forma, podemos dizer que o sujeito, ao apropriar-se de um signifcado social, pode atribuir indi- vidualmente sentidos aos eventos que o cercam. Em particular, nós nos interessamos pelos sentidos e signifcados atribuídos à linguagem escrita no contexto escolar. Sentidos e signifcados que são construídos nas e pelas interações que acontecem na sala de aula a par- tir das práticas culturais do grupo, com a mediação da linguagem. Tal linguagem é entendida como uma prática social, como linguagem em uso, um mediador semiótico, que pode ser verbal, coverbal e não verbal (GUMPERZ, 2002). Linguagem que produz e é produzida pelas e nas culturas, por meio das enunciações das pessoas, daquilo que dizem, fazem e sentem. Consideramos, assim, que o processo de escolariza- ção envolve a construção de subjetividades, em que a criança assume o papel social de aluno. Packer e Goi- coechea (2000) argumentam que a pessoa humana é construída histórica e socialmente em um contexto so- cial, sustentada e transformada em atividades práticas, formada em relações de desejo e de reconhecimento que A psicologia histórico-cultural em diálogo: a trajetória de pesquisa do GEPSA H Maria de Fátima Cardoso Gomes, HH Vanessa Ferraz Almeida Neves, Isabela Costa Dominici Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil Resumo Neste texto apresentamos o Grupo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Histórico-cultural na Sala de Aula (GEPSA), que tem como objetivos desenvolver ensino, pesquisa e extensão sobre linguagem, discurso, cognição social, cultura e inclusão na sala de aula. Em busca de uma abordagem teórico-metodológica coerente com os pressupostos da psicologia histórico-cultural, estabelecemos um diálogo com a etnografa interacional. Apresentamos aqui uma investigação conduzida em uma turma com crianças de cinco anos de idade de uma Unidade Municipal de Educação Infantil de Belo Horizonte, Brasil. O evento de letramento que analisamos foi denominado “O que tem no meio do mar, do céu, do rio e do sol”. A análise desse evento nos possibilitou evidenciar como as crianças trazem para a escola o que sabem das palavras, quantas coisas conhecem sobre esses conceitos, porém pela mediação da escola podem constituir novas identidades, novos conhecimentos de si e do mundo. Palavras-chave: psicologia histórico-cultural; GEPSA; crianças; eventos de letramentos. Cultural-Historical Psychology in dialogue: the trajectory of GEPSA’s research Abstract This text introduces the Cultural-Historical Psychology Classroom Research Group (GEPSA) that has as goals to study language, discourse, social cognition, culture and inclusion within classrooms. We link Cultural-Historical Psychology and Interactional Ethnography searching for a theorical and methodological coherence to conduct our researches. We present an investigation within a six-child classroom in Belo Horizonte, Brazil. We analyzea literacy event called “What is in the middle of the ocean, heaven, river and sun”. The analysis demonstrates how children bring to school what they know about the words and its concepts. Through school mediation, children can constitute new identities, and new knowledge about themselves and the world. Keywords: Cultural-Historical Psychology; GEPSA; children; literacy events. H Grupo de estudos e pesquisas em psicologia histórico-cultural na sala de aula (GEPSA), Coordenado por Maria de Fátima Cardoso Gomes. As autoras agradecem ao auxílio fnanceiro da CAPES/CNPq. HH Endereço para correspondência: Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Educação, Departamento de Ciências Aplicadas a Educação. Av. Antônio Carlos-6627 Pampulha/B.H./M.G. sala 1622 – Pampulha. CEP: 31270-901 - Belo Horizonte, MG – Brasil. E-mail: mafacg@gmail.com, vfaneves@gmail.com, isabelacd@hotmail.com