Letras & Letras, Uberlândia 22 (2) 261-286, jul./dez. 2006 261 A CONSTITUIÇÃO DE IDENTIDADES NO DISCURSO HUMORÍSTICO Maria Aparecida Resende OTTONI * RESUMO: Neste estudo, propomo-nos a analisar uma amostra do discurso humorístico veiculado em livros didáticos de Língua Portuguesa de 5ª série do Ensino Fundamental, com base nos pressupostos da Análise de Discurso Crítica – teoria e método. Objetivamos investigar como são construídas as identidades socioculturais nesse discurso, buscando analisar se nele são reproduzidos ou questionados estereótipos, preconceitos e discriminações. Para isso, adotamos como aporte teórico, principalmente, os trabalhos de Fairclough (2003; 2001); Chouliaraki & Fairclough (1999); Wodak & Meyer (2001); Rajagopalan (2003); Hall (2001); Silva (2000) e diferentes estudos sobre humor. Pudemos perceber que as identidades construídas nos textos humorísticos analisados conduzem- nos à construção de imagens estereotipadas e discriminatórias. Dessa forma, entendemos que é preciso que o humor seja tratado criticamente, a fim de que se possa evitar o reforço das diferenças e das discriminações. Palavras-chave: humor; identidades; análise de discurso crítica. Introdução Tornar-se leitor dos gêneros discursivos (GDs) 1 que circulam na sociedade é um direito e uma necessidade de todos, e, como afirma McLaren (1997, p. 30), a linguagem é o meio básico através do qual “as identidades sociais são construídas, os agentes sociais são formados e as hegemonias culturais asseguradas”. No entanto, percebemos que a leitura de alguns GDs não tem sido valorizada na instituição escolar. No Ensino Fundamental, em específico, os GDs humorísticos (doravante GDHs), geralmente, têm sido colocado à parte, sem qualquer exploração e reflexão acerca do mundo ali representado e das identidades ali construídas, e ou têm sido apenas pretexto para o estudo de tópicos gramaticais. Isso, para nós, constitui um problema, * Professora de Língua Portuguesa da Escola de Educação Básica da Universidade Federal de Uberlândia. Doutora em Lingüística pela Universidade de Brasília. cidottoni@hotmail.com 1 Consideramos gêneros discursivos , aqui, seguindo Bakhtin (1997), como sendo organizações relativamente estáveis de enunciados ligados às diversas esferas de atividade humana, as quais apresentam uma determinada ‘estrutura composicional’, ligada a uma ocasião particular. As limitações para a constituição desses gêneros são históricas e sociais e, como categorias históricas, eles são sujeitos a um processo de transformação contínua. Sugerimos que os/as leitores/as leiam a discussão recente e pertinente sobre GDs tecida por Fairclough (2003), a qual não poderemos apresentar neste artigo pela delimitação de espaço.