Psicologia: Ciência e Profissão 2019 v. 39 (n.spe), e032019, 3-8. https://doi.org/10.1590/1982-3703000032019 Disponível em www.scielo.br/pcp Psicologia, Povos e Comunidades Tradicionais e Diversidade Etnocultural Psychology, People and Traditional Communities and Ethnocultural Diversity Psicología, Pueblos y Comunidades Tradicionales y Diversidad Etnocultural Adolfo Pizzinato 1 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, RS, Brasil. Danilo Silva Guimarães 2 2 Universidade de São Paulo, SP, Brasil. Jáder Ferreira Leite 3 3 Universidade Federal do Rio Grande do Norte, RN, Brasil. O atual momento histórico e político do país demanda diversos posicionamentos da Psico- logia brasileira, de resistência e enfrentamento, através dos fazeres de psicólogas e psicólogos, face aos ataques e ameaças que os povos tradicionais têm sofrido, nas mais diversas partes geo- gráficas e nos mais diferentes campos de atuação. Os povos e comunidades tradicionais aqui destacados dizem respeito a grupos culturalmente diferenciados em relação à sociedade nacio- nal dominante, que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos, predominantemente, por tradição oral. Entre os povos e comunidades tradicionais do Brasil estão quilombolas, ciganos, matriz africana, seringueiros, castanheiros, pescadores artesanais, marisqueiras, ribeirinhos, caiçaras, praieiros, sertanejos, jangadeiros, açorianos, campeiros, varzanteiros, pantaneiros, caatingueiros, e minorias étnicas como grupos de imigrantes e comunidades de diáspora entre outros. Nunca antes a Psicologia brasileira se deparou com discursos tão explícitos de ódio e de ameaça aos direitos das comunidades tradicionais como vivemos no atual momento. Entre- tanto, isso não significa que a Psicologia tenha se despertado para a necessidade de ação direta em defesa dos povos tradicionais apenas no último ano. Ao contrário, a Psicologia brasileira, através de práticas de seus profissionais e do posicionamento institucional enquanto catego- ria profissional, há muito se alinha a movimentos teórico-epistemológicos consoantes com a mesma preocupação em outros países, além de se somar às reivindicações de diferentes movi- mentos sociais vinculados a tais comunidades. Um dos marcos da entrada da Psicologia, enquanto classe profissional, no campo da atenção psicossocial às comunidades indígenas remonta a uma deliberação do 4º Congresso Nacional de Psicologia, de 2001, que recomendou ao Conselho Federal de Psicologia (CFP) uma abordagem estruturada aos povos indígenas. Seguindo essa deliberação, no ano de 2004, o CFP realizou uma parceria com o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organização católica que afirma ter o propósito de fortalecer o processo de incremento da autonomia dos povos indígenas através da construção de um projeto alternativo, multiétnico, popular e democrá- tico. Essa parceria visou a realização do Seminário Nacional Subjetividade e Povos Indígenas em novembro de 2004, que teve a colaboração de 50 líderes comunitários de diferentes partes do Brasil (CRPSP, 2010). Um dos resultados desse seminário foi a criação, em 2008, do Grupo de Trabalho Psicologia e Povos Indígenas, no âmbito do Conselho Regional de Psicologia da 6ª Região (CRPSP) que produziu importantes referências para a categoria profissional (CRPSP, 2010; 2016). Editorial