Rafaella Queiroga Souto et al.
172 R. Ci. méd. biol. 2010; 9(2):172-178
Violência Sexual em Crianças e Adolescentes: Uma Revisão Sistemática
Violence among children and adolescents: a systematic review
Rafaella Queiroga Souto
1
, Belchior Lucena
1
, Adriana de Azevedo Paiva
2
, Alessandro Leite Cavalcanti
2
1
Mestrando em Saúde Pública pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Campina Grande, PB;
2
Professor Doutor do
Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da UEPB, Campina Grande, PB.
Resumo
Esta revisão sistemática descreve as características de vítimas e agressores em casos que envolvem abuso sexual, a partir da
análise dos dados de 24 artigos científicos selecionados dentre 81 trabalhos encontrados por mecanismos de busca na BVS
e PubMed nos anos de 2008 e 2009. Dados sociodemográficos e físicos das vítimas e agressores foram investigados.
Constituíram critérios de exclusão a abordagem de temática diversa da pretendida e não-caracterização das vítimas e
agressores nos referidos trabalhos. As vítimas são, sobretudo, do sexo feminino, e a maioria dos estudos trabalhou com
adolescentes. Em relação ao perpetrador, predominaram indivíduos do sexo masculino, sendo a maioria conhecida da vítima.
Metade dos agressores se constituiu em familiares. Os casos de abuso sexual praticados contra crianças têm um perfil que
se repete e, até certo ponto, é previsível, podendo haver a implementação de políticas públicas e medidas socioeducativas
no sentido de combater essa prática perniciosa. Isso gera a necessidade de iniciativas mais efetivas na política de proteção
à criança e de ação conjunta dos vários setores para avançar na repressão de tais atos e promover eventos e campanhas para
conscientização e prevenção da violência sexual praticada contra crianças.
Palavras-chave: violência sexual - crianças – adolescentes.
Abstract
This systematic review describes the characteristics of victims and perpetrators in cases involving sexual abuse, and analyzes
data from 24 papers selected from 81 studies found by using the search engines of VHL and PubMed, between 2008 and 2009.
Sociodemographic and physical data regarding the victims and perpetrators were researched. Exclusion criteria included
thematic approaches that were different from the one intended and the non-characterization of the victims and aggressors
in the studies. The victims are mainly female and most studies were carried out with adolescents. Perpetrators were
predominantly male, the majority of whom were known by the victim. Half of the perpetrators were related to the victim. The
profile of cases of sexual abuse against children is repetitive and, to a certain extent, predictable, which means it should be
possible to implement public policies and socio-educational measures to combat this pernicious practice. This creates the
need for more effective child protection initiatives and for joint action from the various sectors to repress such acts and
promote awareness and prevention events and campaigns about sexual violence against children.
Keywords: sexual violence – children – adolescents.
Recebido em 01 de março de 2010; revisado em 31 de agosto de 2010.
Correspondência / Correspondence: Rafaella Queiroga Souto. Rua José
Dantas de Aguiar, 225 - Catolé, 58410-230 Campina Grande/PB. E-mail:
rafaellaqueiroga7@gmail.com
ARTIGO DE REVISÃO SISTEMÁTICA
ISSN 1677-5090
© 2010 Revista de Ciências Médicas e Biológicas
INTRODUÇÃO
A violência pode transformar as vítimas em
potenciais agressores, e é afetada tanto pelos aspectos
psicossociais quanto pelos socioeconômicos das
famílias, que geralmente se encontram desestruturadas.
Existem diversos tipos de violência – física e psicológica
–, além de abandono, negligência e abuso sexual
(SANTANA et al., 2002). O abuso ou violência sexual não
se caracteriza apenas por violência física, pois inclui
também carícias, exploração sexual, linguagem
obscena, exibicionismo, masturbação, entre outros
(GAUDERER, 1991).
Estima-se que menos de 1% dos casos de violência
sexual sejam denunciados (SANTANA et al., 2002).
Todavia, apesar dessa baixa notificação, ela é cada vez
mais reportada, acometendo, aproximadamente, 12
milhões de pessoas a cada ano, em todo o mundo
(DREZETT et al., 2001).
Estudos revelaram que a violência sexual é um fator
de risco para psicopatias (DUBE et al., 2005; NELSON et
al., 2002; READ; HAMMERSLEY, 2005), dependência
química (NELSON et al., 2002, 2006), suicídio (CHEN;
DUNNE; HAN, 2006; JOINER Jr et al., 2007), vitimização
sexual na idade adulta, independentemente da atuação
familiar (MESSMAN-MOORE; BROWN, 2004) e que a
maioria dos casos ocorre com crianças e adolescentes
do sexo feminino, mostrando sua fragilidade diante
desse tipo de violência (HIBBARD; SANDERS, 2001;
VANRELL, 2002; GRANVILLE-GARCIA et al., 2006).
As estimativas de prevalência e incidência da
violência sexual contra crianças e adolescentes e o
quão frequentemente estão presentes em seus
cotidianos são dados fundamentais para o
desenvolvimento de políticas de prevenção e de
abordagem desse fenômeno complexo (POLANCZYK et
al., 2003). Essas estimativas são extremamente
variáveis, pois dependem da definição de violência
sexual usada, da população estudada e dos métodos de
avaliação.