NOTA CIENTÍFICA Revista Brasileira de Biociências, Porto Alegre, v. 5, supl. 1, p. 243-245, jul. 2007 Introdução A família Solanaceae A. L. Jussieu está constituída de 106 gêneros [1] e cerca de 3.000 espécies, com distribuição cosmopolita, sendo o gênero Solanum o maior e mais complexo, com cerca de 1.500 espécies [2]. No Brasil, muitas espécies de Solanum são empregadas na medicina popular para vários fins. Dentre as mais conhecidas, Solanum paniculatum L. é que mais se destaca pelos seus diferentes usos medicinais, por sua distribuição ampla e, principalmente, por ser o único representante de Solanum reconhecido como fitoterápico pela Farmacopéia Brasileira [3, 4], cujas raízes e caules são indicados no tratamento da anemia e das desordens hepáticas e digestivas. Além disso, as raízes também são usadas no tratamento de artrite [5], e fazem parte de garrafadas que são usadas como estimulante [6]. Em virtude do largo emprego de S. paniculatum na medicina popular regional, raízes e caules de outras espécies, como S. rhytidoandrum Sendtn., também são utilizadas com os mesmos fins medicinais como sucedâneas. Neste trabalho apresenta-se um estudo farmacobotânico comparativo de órgãos vegetativos de Solanum paniculatum e S. rhytidoandrum, com o objetivo de efetuar morfodiagnoses macroscópicas e microscópicas que possibilitem sua caracterização. Material e métodos A. Coletas e identificações botânicas Foram realizadas expedições para coletas e observações de campo, sendo o material coletado utilizado para as identificações botânicas, estudos morfológicos e anatômicos. As análises foram realizadas com amostras frescas e fixadas em FAA 50%. B. Estudo farmacobotânico Realizaram-se estudos morfológicos de partes vegetativas de folhas, caules e raízes para as descrições e morfodiagnoses macroscópicas, com auxílio de estereomicroscópio binocular e câmara-clara Zeiss. Secções paradérmicas (lâminas foliares) e transversais de folhas adultas (lâminas e pecíolos), coletadas no 5º nó, fragmentos caulinares obtidos do ápice dos ramos, e região mediana e apical de raízes laterais, de pequeno calibre, foram realizadas à mão livre, com lâmina cortante e suporte de medula de pecíolo de Cecropia sp. (imbaúba), seguindo-se a metodologia usual. Posteriormente, as secções foram clarificadas com hipoclorito de sódio (50%), coradas com safranina e/ou safrablue, montadas entre lâmina e lamínula, com glicerina a 50%. Testes histoquímicos foram realizados, empregando-se as soluções de floroglucinol acidificado [7], para verificação de elementos lignificados e suberificados; Sudan III [8], para evidenciação de cutícula; lugol para amido [9]; solução de ácido clorídico a 10 %, para evidenciar cristais de oxalato de cálcio [8]. As caracterizações das raízes, caule, paredes celulares da epiderme e mesofilo basearam-se em Fahn [10], e a classificação dos estômatos seguiu Metcalfe & Chalk [11]. As estruturas foram observadas e fotomicrografadas ao microscópio óptico, Olympus modelo CX31, com câmara fotográfica Olympus PM –BP35. Resultados A. Morfologia e anatomia Solanum paniculatum é um arbusto de 1 a 1,5 m de altura, revestido de indumento alvo-tomentoso a cinéreo, constituído basicamente de tricomas porrecto-estrelados, sésseis ou estipitados, com o raio central reduzido, unicelular. A raiz é ramificada (Fig. 1B); em crescimento secundário inicial possui xilema com estrutura hexarca (Fig. 1C). As folhas são largo-ovadas a lanceoladas, com a margem lobada ou inteira (Fig. 1A), com acúleos cônicos; a epiderme da lâmina, em vista frontal, apresenta células com paredes anticlinais poligonais, retas na face adaxial (Fig. 1D) e sinuosas na face abaxial (Fig. 1E); o pecíolo, em secção transversal, exibe contorno levemente biconvexo, e o sistema vascular é formado por quatro a cinco feixes bicolaterais (Fig. 1F). Solanum rhytidoandrum é um arbusto de 1 a 2 m de altura, com indumento tomentoso-ferrugíneo, com tricomas estrelado-glandulares, sésseis e estipitados, com o raio central pluricelular. A raiz é axial (Fig. 1H); em crescimento secundário inicial apresenta xilema com estrutura tetrarca (Fig. 1I). As folhas são elípticas, com a margem inteira (Fig. 1G); a epiderme da lâmina, em vista frontal, apresenta células com paredes sinuosas na face adaxial (Fig. 1J), e poligonais retas abaxial (Fig. 1K); o pecíolo, em secção transversal, exibe contorno levemente Estudo farmacobotânico comparativo entre Solanum paniculatum L. e Solanum rhytidoandrum Sendtn. (Solanaceae) Kiriaki Nurit 1 , Maria de Fátima Agra 2 e Ionaldo José Lima Diniz Basílio 3 ________________ 1. Mestre em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos pela Universidade Federal da Paraíba. Cidade Universitária, João Pessoa, PB, CEP 58051- 970. E-mail: kiriaki@ltf.ufpb.br 2. Professora Adjunto IV, Departamento de Ciências Farmacêuticas, Laboratório de Tecnologia Farmacêutica, Universidade Federal da Paraíba. Cidade Universitária, Caixa Postal 5009, João Pessoa, PB, CEP 58051-970. 3. Aluno de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos, Laboratório de Tecnologia Farmacêutica, Universidade Federal da Paraíba. Cidade Universitária, João Pessoa, PB, CEP 58051-970. Apoio financeiro: CAPES e CNPq.