R. Bras. Risco e Seg., Rio de Janeiro, v. 6, n. 11, p. 35-66, abr./set. 2010 35 A Percepção dos Riscos e sua Influência na Redução dos Acidentes de Trabalho* Antonio Fernando Navarro, M.Sc. Engenheiro civil, Mestre em Saúde e Meio Ambiente, Doutorando em Engenharia Civil e especialista em gestão de riscos, tendo atuado por 20 anos na atividade seguradora afnavarro@terra.com.br Resumo Grandes têm sido os avanços nos estudos para a compreensão dos acidentes do trabalho. No princípio, as associações eram até relativamente bem simples, ligando-se o trabalhador aos seus afazeres – trabalho, procurando encontrar algo que justificasse o acidente. Mais posteriormente, nesses estudos passou-se a correlacionar também o meio ambiente do trabalho, ao trabalhador e à sua tarefa. Descobriu-se que, com a incorporação desse terceiro vetor, muitas das causas inexplicáveis passavam a ter sentido. Hoje já se sabe que há muito mais coisas a serem estudadas do que simplesmente aquelas três linhas: meio, homem, trabalho. O meio é mutável de acordo com circunstâncias, da mesma forma que o comportamento humano. Uma tarefa pode ser mudada sob certas circunstâncias. Há os procedimentos que devem ser seguidos. Quando a pressa passa a ser eleita como prioridade número um muitos dos procedimentos são postos de lado. Aí surgem os atalhos, que também auxiliam o surgimento dos acidentes. Ainda estamos no resumo do artigo e já percebemos que acidente é algo complexo. Quando não corretamente analisado, está se dando “sorte ao azar”, ou seja, possibilitando que outros possam ocorrer. A quebra desse círculo vicioso começa com o estudo de suas causas-raiz ou causas básicas. Se um elo da corrente fica aberto, evitam-se novas ocorrências. No estudo sobre a Percepção dos Riscos e a sua influência na redução dos acidentes do trabalho vamos discutir apenas um dos elos, que trata da “vítima”, ou o trabalhador. Os acidentes do trabalho sempre foram causa de muitas preocupações por parte das empresas e governos, e motivo de grandes investimentos. Ocasionalmente, esses valores eram repensados, porque a redução dos acidentes não ocorria na mesma proporção. A partir dessa constatação e premidas por resultados em função da implementação de normas de gestão (NBR ISO 14001, OHSAS 18001 e outras); pelos acionistas, preocupados com a imagem da empresa e os valores das ações, e órgãos fiscalizadores, motivados pelos atendimentos médico-hospitalares e aposentadorias precoces, as empresas passaram a avaliar melhor as razões e causas dessas ocorrências de acidentes, em vista dos investimentos realizados e das boas práticas adotadas. Afora as tradicionais práticas de prevenção de riscos, passaram a dar mais atenção a outras questões envolvendo os aspectos comportamentais ligados aos trabalhadores acidentados. Prova disso é que muitas das análises de acidentes passaram a incorporar informações sobre as atividades dos trabalhadores no mesmo dia ou no dia anterior à ocorrência dos acidentes, como por exemplo: a que horas o trabalhador chegou ao canteiro de obras? Qual foi o tema das orientações de segurança do dia? Qual foi a hora de início das atividades? Quem estava acompanhando os serviços? Houve a liberação das atividades? E outras questões mais. * Artigo recebido em 23/11/2009. Aprovado em 27/11/2009.