280 Braz. J. vet. Res. anim. Sci., São Paulo, v. 46, n. 4, p. 280-287, 2009 Efeitos do estresse de trabalho sobre parâmetros seminais de cães da raça Rottweiler 1 - Departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, São Paulo-SP 2 - Exército Brasileiro, 2º Batalhão de Polícia do Exército - Seção de Cães de Guerra, Osasco-São Paulo 3 - Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade Federal do Mato Grosso, Cuiabá-MT Carlos de Almeida BAPTISTA SOBRINHO 1,2 Luciana Keiko HATAMOTO- ZERVOUDAKIS 3 Valquíria Hyppolito BARNABE 1 Marcílio NICHI 1 Claudio Alvarenga de OLIVEIRA 1 Correspondência para: Carlos de Almeida Baptista Sobrinho, Exército Brasileiro - 2º Batalhão de Polícia do Exército - Seção de Cães de Guerra, Rua Raul Lessa 52, 06236-100, Osasco, São Paulo, cabsobrinho@uol.com.br / sobrinho@usp.br Recebido para publicação: 17/11/2005 Aprovado para publicação: 30/04/2009 Resumo O presente trabalho teve como objetivo avaliar os efeitos do estresse de trabalho sobre a fertilidade de cães machos. Foram utilizados 18 cães da raça rottweiler, férteis, com idade média de 4 anos, distribuídos aleatoriamente em dois grupos: repouso (controle) e trabalho (tratamento). O tratamento era composto por 5 fases: 1-adaptação, 2- adestramento básico, 3-adestramento militar e condicionamento, 4- acampamento, 5-repouso. Durante todo o período experimental, foram feitas duas coletas de sêmen semanais, para avaliação do ejaculado. No final de cada fase foi realizada coleta de sangue para dosagem dos níveis plasmáticos de cortisol. Os dados foram analisados pelo SAS, á=5%. Observou-se efeito negativo do estresse sobre os parâmetros motilidade (72,63 vs. 57,62, p<0,0001) e vigor espermático (3,06 vs. 2,52, p<0,0001), porcentagem de defeitos maiores (16,01 vs. 26,80, p< 0,0001) e totais (29,61 vs. 40,34, p<0,0001). Observou-se interação (p<0,0001) entre tempo e tratamento sobre a variável cortisol, indicando que o tipo de agente estressante (fase) interfere no nível plasmático de cortisol. Com base nesses resultados, é possível concluir que o estresse de trabalho interferiu de maneira negativa na fertilidade dos cães. Palavras-chave: Sêmen. Estresse. Cães. Introdução Nos últimos anos, a inserção social dos animais domésticos tem crescido significativamente. Além de animais de companhia 1 , os cães desempenham várias funções: servem como guias de deficientes visuais, auxiliam no tratamento de algumas doenças, pastoreiam rebanhos, auxiliam na caça, atuam como guarda de bens e/ou pessoas, e são utilizados para a detecção de drogas em aeroportos e em atividades policiais e militares. Devido a esta maior proximidade com o ser humano os cães tornam-se mais susceptíveis a comportamentos e alterações de saúde que antes eram exclusivos do homem, como o sedentarismo, a obesidade e o estresse. O estresse é a incapacidade de um animal interagir com o ambiente em igualdade de condições 2 sendo que, diferentes autores apontam a correlação positiva existente entre o estresse e a reprodução 2,3,4 . O estresse funcional e o estresse de trabalho têm grande influência na qualidade do sêmen, e prejudicam a fertilidade em humanos. 5 A principal manifestação do estresse nos machos é a significativa queda de qualidade do sêmen, expressa pela redução da motilidade espermática 3,6 pelo aumento do número de espermatozóides mortos, pelo aumento das alterações na membrana espermática 6 , pelo elevado grau de retenção de gota citoplasmática e pelas alterações acrossomais 3 que indicam má função epididimária. Desta forma, o conhecimento do mecanismo pelo qual o estresse pode afetar