GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, n. 34, 2013. Número Especial, p. 82-93. * Este texto resulta da tese de doutorado intitulada O processo recente de atualização do território no sudoeste da Amazônia: lógicas exógenas e dialéticas endógenas em Rondônia e Acre, defendida em 2009, no Programa de Pós-graduação em Geografia da UNESP, campus Rio Claro, sob orientação da Prof a Dr a Samira Peduti Kahil, com apoio do CNPq. A tese avaliou processos recentes de modernização do território e, para este texto, destacamos particularmente os conteúdos que se referem à modernização do campo no sudoeste amazônico. ** Professor Adjunto, Instituto de Geografia, Universidade Federal de Uberlândia. E-mail: mirlei@ig.ufu.br. Resumo: No sudoeste da Amazônia (estados de Rondônia e Acre), práticas recentes da agricultura e pecuária revelam um uso do território muito marcado por um trabalho endereçado à interesses distantes – uma agricultura que se instala principalmente a partir da década de noventa, intensa em técnica e capital, comandada por grupos externos à região, com amplo apoio do poder público em termos de normas e financiamentos que facilitam a produção. Ao mesmo tempo, permanecem as práticas de um campo não moderno, visto muitas vezes como “tradicional” – pouco capitalizado e voltado para as demandas locais. São diferentes divisões do trabalho que a região acolhe, denunciando as desigualdades do território, dinâmica esta que também revela possibilidades outras de organização da produção e outros usos possíveis do território. Palavras-chave: território usado, divisão do trabalho, agropecuária, campo não moderno, Rondônia e Acre. LABOR IN FIELD AND USED TERRITOY IN SOUTHWESTERN AMAZON (BRAZIL): TECHNICAL-NORMATIVE’S UPDATES AND LOCAL RESISTANCES Abstract: In southwestern Brazilian Amazon (territory composed of Rondônia and Acre states), recent practices of agriculture and livestock reveals a territory’s use characterized for a work addressed to distant interests – an agriculture that takes place mostly from the nineties, intense in technology and capital, commanded by great companies outside the region, with broad support from government in terms of norms and financing that facilitate the production. At same time, remain practices of the no-modern field often seen like “traditional” – little capitalized and oriented to local demands. They are different divisions of labor that the region receives, denouncing the inequalities of the territory, this dynamic also reveals other possibilities for organizing production and others possible uses of the territory. Keywords: Used territory, Division of labor, Agriculture and livestock, no-modern field, Rondônia and Acre, Brazil. Introdução A geografia, ainda que de modo tardio, nos ofereceu a compreensão de como as formas espaciais atuam diretamente na estrutura das sociedades. Em outras palavras, podemos hoje, com Milton Santos, compreender o espaço geográfico como instância social das mais importantes, pois todo o trabalho e toda a ação não lhe podem escapar - realizam-se no espaço; a partir do espaço; tornam-se espaço (SANTOS, 2004). O legado de Milton Santos nos parece fundamental, pois, exigindo de nossa ciência uma interpretação totalizadora do espaço geográfico, em suas palavras – espaço de todos, espaço banal (SANTOS, 1994a), sinônimo de território usado (SANTOS, 1999b), confere à geografia um novo lugar e uma nova missão entre as ciências sociais – interpretar a sociedade pelo território, compreender seus dilemas, fazer falar a TRABALHO NO CAMPO E TERRITÓRIO USADO NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA: ATUALIZAÇÕES TÉCNICO-NORMATIVAS E RESISTÊNCIAS LOCAIS* Mirlei Fachini Vicente Pereira**