estudos semióticos issn 1980-4016 semestral vol. 10, n o 2 p. 53–65 dezembro de 2014 http://revistas.usp.br/esse O estilo dos gêneros digitais Daniervelin Renata Marques Pereira Resumo: Este texto tem como ponto de partida a análise de chats e fóruns de dois cursos online sob o viés da teoria semiótica francesa aliada à teoria dos gêneros de Bakhtin. Nosso objetivo é compreender os mecanismos de produção de sentido nessas práticas, na medida em que elas se vinculam a ajustamentos sensíveis e “contagiam” a estrutura dos gêneros como totalidade. Aqui, trataremos das regularidades e sensibilidades que constituem as práticas digitais, as quais, atreladas aos gêneros, neles se manifestam como sistema de regras passíveis de inovações em uso. Para isso, partimos de algumas características dos gêneros chat e fórum da esfera educacional visando ao conjunto de gêneros digitais dentro de uma teoria geral dos gêneros. Das análises feitas, depreendem-se recorrências que apontam para o estilo do gênero chat e para o estilo do gênero fórum, que permitem, em consequência, a identificação de características mais gerais que remetem ao estilo do gênero digital da esfera educativa. Deste estudo emergem então questões ainda pouco exploradas, como: o estilo dos gêneros digitais e categorias para sua depreensão; modos de ensino e de aprendizagem acolhidos pela prática educativa digital; formas de vida pedagógico-digital e procedimentos de ajustamento desenvolvidos pelos sujeitos, entre outras, condizentes com nossos objetivos. Palavras-chave: gêneros digitais, estilo, semiótica francesa Introdução A discussão que aqui apresentamos é o resultado da análise de três chats e três fóruns 1 de esfera edu- cacional de cada um dos dois cursos livres online que acompanhamos para a pesquisa de doutorado em 2010: “Games em Educação no Second Life” (GES) e “Pesquisa Acadêmica na Web” (PAW). Cada um desses chats e fóruns foram analisados sob a luz da semiótica francesa e, dos resultados, abstraímos as diferenças e semelhanças estilísticas dos dois gêneros digitais, tra- zendo para a discussão a abordagem bakhtiniana dos gêneros. A discussão que se seguirá é feita com base nessas análises, que podem ser encontradas com mais detalhes na nossa tese de doutorado (Pereira, 2013). O que pretendemos, em suma, é tratar das regularidades e sensibilidades que constituem as práticas digitais, as quais, atreladas aos gêneros, neles se manifestam como sistema de regras passíveis de inovações em uso. Apresentamos, a seguir, uma breve caracterização dos dois cursos acompanhados em 2010 e investigados em nossa pesquisa: 1. Games em Educação no Second Life (GES): curso livre online com 20 inscritos interessados nas questões relativas à utilização educativa dos ga- mes. As interações ocorriam prioritariamente no chat, articulado aos espaços do mundo digital Se- cond Life e, em outros momentos, por fórum de um ambiente digital para ensino-aprendizagem. 2. Pesquisa Acadêmica na Web (PAW): curso livre online com 37 inscritos, principalmente bibliotecá- rios que buscavam informações atualizadas sobre recursos tecnológicos para pesquisas e estratégias de pesquisa na web. As interações ocorriam em diversos espaços da plataforma TelEduc, especial- mente nos chats e fóruns. Colocamos em diálogo dois estilos, GES e PAW, de- terminados por recorrência nos modos de ensinar e de aprender, que subjazem às escolhas em cada enunci- ado. De forma ainda mais geral, mas sem desconsi- derarmos a importância das diferentes maneiras de produzir sentidos, emparelhamos os dois gêneros em- pregados nos cursos, chat e fórum, em busca do estilo Universidade Federal do Triângulo Mineiro UFTM. Endereço para correspondência: danieverlin@gmail.com . 1 Por chat, entendemos o gênero de interação síncrona (concomitante) entre duas ou mais pessoas em ambiente digital, em formato de conversa. Já o fórum é um gênero de interação assíncrono (não concomitante) que permite discussões entre duas ou mais pessoas em ambiente digital.