452 UMA REGIÃO MONTANHOSA E HOSPITALEIRA Resenha de Vivos na memória, de Leyla Perrone-Moisés Claudia Amigo Pino 1 Laura Taddei Brandini 2 Não parece, mas é um livro sobre montanhas. Quem leu até o final não tem dúvida. Algumas montanhas muito conhecidas, escaladas e fotografadas por boa parte da intelectualidade, como Clarice Lispector, Roland Barthes, José Saramago. Outras não tão conhecidas, porque são montanhas que se encontram ao fundo ou ao lado, em meio às cadeias de grandes escritores e pensadores: os editores, os críticos, os professores. Vivos na memória nos faz levantar o olhar, e nos empresta uma lente para vê-las de outra forma, de perto, com lampejos que, de longe, não poderíamos perceber. Mas o livro também é sobre vales, sobre o vazio deixado por essas montanhas, depois de gastas pelo vento. A escrita dá vida nova às personagens retratadas, mas também nos faz perceber que elas não estão mais lá. Capítulo a capítulo, passamos por viagens, festas, saraus, cafés, caminhadas, comidas, cartas, abraços… Mas também, inevitavelmente, passamos por abandonos, perdas, exílios, doenças, fraquezas, e mortes lentas e mortes trágicas, lutos, que permitem ver os pequenos detalhes, as simples anedotas, como grandes alegrias, esperança de voltar a ver um mundo onde a terra não é mais plana. O detalhe é o grande motor da escrita deste livro: fragmentos de vida que compõem, à maneira abstrata, as fotografias das montanhas, ou os retratos dos escritores e intelectuais com quem Leyla Perrone-Moisés estabeleceu laços de amizade e admiração. Talvez esse olhar do detalhe seja uma herança do pintor Samson Flexor, professor e incentivador da arte abstrata em São Paulo. Desejando se tornar pintora, a jovem Leyla é acolhida como a caçula do Ateliê Abstração e lá adquire um aprendizado do olhar que a acompanhará até mesmo em outros campos. Ao deixar a prática da pintura para ingressar na crítica literária, escrevendo para o Suplemento Literário desde 1958, a autora reconhece que Não foi uma ruptura total, e o ensinamento de Flexor permaneceu ativo em minha apreciação das obras literárias. Um romance ou um poema, como um quadro ou uma composição musical, são feitos de um arcabouço invisível de linhas de força, um jogo de valores, contrastes cromáticos, retomadas sutis de temas antes anunciados, etc. (2021, p. 23) 1 Claudia Amigo Pino é professora de Literatura Francesa na Universidade de São Paulo e pesquisadora nível 2 do CNPq. E-mail: hadazul@usp.br 2 Laura Taddei Brandini é professora de Literatura Francesa na Universidade Estadual de Londrina. E-mail: laura@uel.br