Revista Brasileira de Geociências 31(3):357-360, setembro de 2001 INTRODUÇÃO Ao longo dos 650 km de extensão do Cinturão Móvel Salvador-Curaçá (CMSC) existe um alinhamento descontinuo de diques sieníticos, no sentido Norte-Sul, de natureza alcalino- potássica (Fig. 1A). Este trend é composto pelos maciços de Itiúba (a norte, 1800 km 2 ), Santanápolis (a sudeste, 180 km 2 ) e São Félix (a sul, 32 km 2 ). De acordo com Conceição (1993) estes sienitos cimentam uma geossutura litosférica ocorrida no final da estabilização do CMSC. Os dados geocronológicos disponíveis sobres estes sienitos mostram que os maciços de Itiúba (Pb-Pb, Conceição et al. 1997) e Santanápolis (U-Pb, Conceição et al. 2001) foram colocados há cerca de 2,1 Ga. Contudo, a idade absoluta disponível para o Maciço Sienítico de São Félix de 1,8 Ga, obtida por Aillon (1992), através de uma errócrona Rb-Sr de afloramento, é discordante das obtidas para os outros dois maciços sieníticos do CMSC. Neste trabalho, pretende-se apresentar e discutir os dados geocronológicos (Pb-Pb em monocristais de zircão) e a assinatura isotópica (Rb-Sr e Sm-Nd) do Maciço Sienítico de São Félix (MSSF), com o intuito de contribuir para uma melhor compreensão da evolução do magmatismo sienítico paleoproterozóico relacionado com a Orogenia Transamazônica neste setor do Cráton do São Francisco. CONTEXTO REGIONAL O CMSC compreende uma associação de rochas granulíticas, migmatíticas, charnoquíticas, gnáissicas, graníticas e sieníticas (Fig. 1A). A principal unidade litológica presente é o Complexo Caraíba (Figueiredo, 1981), com idades em torno de 2,4 Ma (Melo, 1991). Este complexo é constituído, em sua maior parte, por ortognaisses que servem de encaixante para granitóides, mais de 40 plutões (monzonitos, quartzo-monzonitos, monzogranitos, sienogranitos), cujas paragêneses encontram-se em equilíbrio ora com a fácies granulítica, ora com a fácies anfibolítica, e que foram intrusivos em diversas etapas da evolução deste cinturão. O CMSC foi interpretado por Padilha e Melo (1991) como sendo a parte profunda de um orógeno estabilizado há 1,9 Ga (Rb-Sr). A porção mediana do cinturão é marcada pela colocação de intrusões de magmas sieníticos e graníticos potássicos. As rochas dos maciços sieníticos (Itiúba, Santanápolis e São Félix) apresentam estruturas gnáissicas. Em Itiúba IDADE PB-PB E ASSINATURA ISOTÓPICA RB-SR E SM-ND DO MAGMATISMO SIENÍTICO PALEOPROTEROZÓICO NO SUL DO CINTURÃO MÓVEL SALVADOR- CURAÇÁ: MACIÇO SIENÍTICO DE SÃO FÉLIX, BAHIA MARIA DE LOURDES DA SILVA ROSA 1,2 , HERBET CONCEIÇÃO 2 , MOACIR JOSÉ BUENANO MACAMBIRA 3 , TOMAZ SCHELLER 3 , HERVÉ MARTIN 4 , LUIZ ROGÉRIO BASTOS LEAL 2 ABSTRACT The São Félix Syenitic Massif (MSSF) has a tabular shape with about 32 km 2 that represents the south expression of the aligned syenitic plutonism, which occur in the middle part of Salvador-Curaçá mobile belt (CMSC). Single zircon dating by stepwise Pb evaporation methodology yields an age of 2098 ± 1 Ma to SFSM. This data correlate the emplacement of the SFSM with the late stages of SCMB stabilization. This massif is isotopically characterized by negative epsilon neodymium values (-1.45 to -2.89) and low initial strontium ratio (0.701 to 0.704). SFSM isotopic signature is similar to the ones displayed by the others syenites from the belt and reflects an enriched source which should be related to a metasomatic enriched mantle. Keywords: Syenite, Paleoproterozoic, enriched mantle, Bahia RESUMO O Maciço Sienítico de São Félix (MSSF) é um corpo tabular com cerca de 32 Km 2 que representa a expressão mais a sul de um alinhamento de corpos sieníticos na porção mediana do Cinturão Móvel Salvador-Curaçá (CMSC). A datação Pb-Pb por evaporação de monocristais de zircão indica que o MSSF tem idade de 2098 ± 1 Ma, demonstrando que a colocação deste sienito está relacionada com as etapas finais de estabilização do CMSC. O maciço caracteriza-se istopicamente por valores e Nd negativo entre -1,45 e -2,89, e baixas razões iniciais 87 Sr/ 86 Sr (0,701 a 0,704). A assinatura isotópica do MSSF é similar aos outros maciços sieníticos do cinturão e reflete uma fonte enriquecida, provavelmente, um manto metassomatizado. Palavras-chave: Sienito, paleoproterozóico, manto enriquecido, Bahia 1. Pesquisadora CNPq – Desenvolvimento Científico Regional (DCR). (lourdes@cpgg.ufba.br) 2. Grupo de Petrologia Aplicada à Pesquisa Mineral (GPA) – Departamento de Geoquímica & Centro de Pesquisa em Geofísica e Geologia – IGEO – UFBA. Rua Caetano Moura, 123 Federação, CEP 40201-340, Salvador-BA, Brasil (herbet@cpgg.ufba.br, lrbleal@zaz.com.br) 3. Laboratório de Geologia Isotópica (Pará-Iso) – Universidade Federal do Pará. Caixa Postal 1611, CEP 66075-900, Belém-PA, Brasil (moamac@ufpa.br, tscheller@ufpa.br) 4. UMR 6524 – CNRS, Université Blaise Pascal, 5 rue Kessler, 63038 Clermont-Ferrand, Cedex, France (martin@opgc.univ-bpclermont.fr) sienitos gnáissicos limitam-se as bordas (aproximadamente 600 m) e enquanto nos maciços menores sienitos com estrutura gnáissica são abundantes. Estes maciços sieníticos apresentam mineralogia similar, mesma assinatura geoquímica (potássica-ultrapotássica) e posicionam- se após cessar o metamorfismo granulítico (Conceição 1993). Os ma- ciços de K-granitos (Pedra Solta, Gavião, Pé de Serra-Camará; Fig. 1A) apresentam pouca influência das deformações regionais e guardam enclaves de rochas sieníticas (Otero et al. 2001). O MSSF representa uma intrusão alongada na direção N-S, por cerca de 16 km, abrangendo uma área de 32 km 2 , encontrando-se en- caixado em terrenos gnáissico-granulíticos (Fig. 1B). O formato tabu- lar e a geometria sigmoidal do maciço de São Félix foram interpreta- dos como resultantes de uma combinação dos sistemas distensivo e compressivo, sob regime transcorrente (Correia Gomes et al. 1996). O MSSF é constituído por rochas de grande homogeneidade composicional e textural. Estas litologias são leucocráticas, de colora- ção cinza a rósea, granulação fina a média, ocasionalmente porfirítica, apresentando predomintamente textura gnáissica, localmente Figura 1 - Contorno geográfico do Estado da Bahia, com a localização do Cinturão Móvel Salvador-Curaçá e mapa geológico simplificado do CMSC, segundo Conceição (1993) [A]. Mapa geológico simplificado do Maciço Sienítico de São Félix, segundo Rosa (1994) [B]. Cidades (1), falhas (2), lineação estrutural em imagem (3), K-granitos (4; Pedra Solta, Gavião e Pé de Serra-Camará), maciços sieníticos (5; Itiúba, Santanápolis e São Félix), terrenos granulíticos do CMSC (6), cidades (7), falhas fotogeológicas (8), coberturas térciária-quaternárias (9), sedimentos da bacia do Recôncavo (10), maciço sienítico de São Félix (11) e rochas granulíticas (12).