REVISTA USP, São Paulo, n.66, p. 163-166, junho/agosto 2005 163 “ U 1 Franz Kafka, Um Médico Rural, trad. e posfácio de Modesto Carone, São Paulo, Brasiliense, 1990, pp. 19-21. ARIOVALDO JOSÉ VIDAL é professor de Teoria Literária da FFLCH- USP e autor de Roteiro para um Narrador. Uma Leitura dos Contos de Rubem Fonseca (Ateliê) e Leniza & Elis. Duas Cantoras, Dois Intérpretes (Ateliê), este com Joaquim Alves de Aguiar. ARIOVALDO JOSÉ VIDAL Kafka UMA FÁBULA ANTIGA “Uma Folha Antiga”, conto de Franz Kafka, faz parte do livro de narrativas breves Um Médico Rural (1). Trata-se de um conto exemplar do despojamento ao essencial que o autor operou em sua arte. O título propõe uma dupla perspectiva: de um lado, “folha” refere-se ao caso narrado, que é “antigo” porque fala de homens anteriores ao convívio da civilização – os nômades do norte; ou seja, o autor utiliza o procedimento da metonímia: o continente pelo conteúdo, a folha antiga por história antiga. Por outro lado, como o conto é narrado por uma personagem “antiga” – o artesão sapateiro – supõe-se que o título seja de outra personagem, a que podemos chamar de autor implícito. Se a narrativa é antiga, está indiciada dialeticamente uma consciência “moderna” no título, de tal modo que se estabelece uma tensão de perspectivas: uma história antiga que interessa a uma consciência moderna – o que faz com que a história seja, por isso mesmo, igualmente moderna. O conto é reduzido a uma situação de cidade sitiada – mais um dos becos sem saída de Kafka – em que o narrador mostra sua perplexidade e a de seus pares pelo confinamento a que estão condenados. Todas as ruas de acesso ao centro do burgo estão tomadas pelos nômades do norte, que conseguiram vencer a resistência dos guar- das imperiais e se instalar na praça central. Agora, a “defesa da pátria” está entregue aos artesãos e comerciantes, desorientados diante dos hostis invasores. Duas narrativas de