752 AVANCA | CINEMA 2021 The Gate of Heaven: Miracle or Fraud? A porta do céu: milagre ou fraude? Luiz Nazario Universidade Federal de Minas Gerais Abstract In the fnal months of fascism, the realization of “La porta del cielo” (“The Gate of Heaven”, 1945), produced by the Catholic Film Center of Rome and directed by Vittorio De Sica, would have served as an “inner exile” to the flmmaker, as well as a miraculous refuge for hundreds of Jews. Thanks to purposely endless footage, Jews hired as extras would have been able to save themselves from deportation to Auschwitz. A touching story, but how true would it be? Are we facing a fairy tale imagined to ennoble the political performance of the flmmaker in the fnal months of the regime, when the collapse of fascism was already evident? Almost invisible, the flm keeps its secret: miracle or fraud? Analyzing a copy exhibited once by RAI, we intend to shed light on a little studied flm of one of the masters of Italian neorealism. Keywords: The Gate of Heaven, Vittorio De Sica, Italian neorealism, Fascism, Cinema. Introdução Em 2003, a revista Civilitá Cattolica exaltou o cineasta Vittorio De Sica por ter impedido a deportação de 300 judeus alojados em igrejas católicas ao aceitar empregá-los como extras de seu flme La porta del cielo (A porta do céu, 1943-1945). Produzido pelo Vaticano, o flme teve, supostamente a pedido do Papa Pio XII, suas flmagens estendidas muito além do que seria normalmente necessário, de 1943 até o fm da ocupação alemã (DPA 2003). Empregando fgurantes judeus e outros perseguidos polítcos do nazismo, o flme teria evitado sua captura e deportação. Mas permanecem imprecisas as informações sobre os judeus e perseguidos politicos salvos, assim como as verdadeiras razões para o engavetamento de um flme supostamente tão importante para a História do Cinema e do Holocausto. Até que ponto pode-se acreditar na abnegada ação do cineasta em salvar judeus da deportação? Teria sido De Sica - ao lado de Rauol Wallenberg, Aristides de Sousa Mendes, Chiune Sugihara, Giorgio Perlasca, Luiz Martins de Souza Dantas ou Oskar Schindler - um dos Justos do Holocausto? Por que o projeto do “santo” Papa Pio XII, cuja omissão diante do Holocausto tantos historiadores reprovaram, não foi restaurado e exibido com orgulho pelo Vaticano, que produziu o flme e detém seus direitos, constituindo a fantástica realização uma prova evidente da resistência da Igreja numa importante ação humanitária antinazista? Por que La porta del cielo não foi distribuído mundialmente quando De Sica tornou-se mundialmente famoso depois que flmes seus ganharam o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1948, 1950, 1965 e 1972? Por que La porta del cielo permaneceu esquecido pelos historiadoes do cinema, sem merecer, como outros flmes do cineasta, um relançamento mundial em DVD e Bluray, sobrevivendo apenas três cópias dele nos arquivos, sendo um flme quase invisível? A porta do Inferno 1. A colaboração dos artistas O regime fascista proibia os flmes de Charles Chaplin, Jean Vigo, Jean Renoir ou Marcel Carné, mas empregava grandes cineastas, que fcaram mundialmente famosos no pós-guerra, como Luchino Visconti, Vittorio De Sica, Giuseppe De Santis, Roberto Rosselini, Alberto Lattuada. Para sabermos até que ponto cada artista resistiu ao fascismo ou colaborou com ele, mesmo que superfcialmente, é preciso acessar os flmes e os documentos. Michelangelo Antonioni, por exemplo, elogiou o flme nazista Jud Süss (Judeu Suess, 1940), de Veit Harlan, premiado no Festival de Cinema de Veneza com o Leão de Ouro. Rossellini realizou flmes de propaganda como Un pilota ritorna (Um piloto retorna, 1941) e La nave bianca (A nave branca 1941). Nos anos de 1930, De Sica atuou em dezenas de flmes da produção fascista. Foi dirigido por Alessandro Blasetti em Nessuno torna indietro (1943). No período fascista, até o Centro Cattolico Cinematografco (CCC) do Vaticano produziu flmes através da empresa subsidiária Orbis, como o docudrama Tra gli incanti del Pacifco (1938), de Bernardo Wobken; o documentário Pastor Angelicus (1942), de Romolo Marcellini e Luis Trenker; e o drama La porta del cielo (A porta do céu, 1943-1945), de Vittorio De Sica. Pouco se sabe sobre Bernardo Wobken e Romolo Marcellini. Mas Luis Trenker foi um dos atores mais populares do cinema nazista. Realizou um dos flmes prediletos de Hitler, Der Rebell (O rebelde, 1932), e inseriu-se com sucesso no cinema de propaganda, com Der verlorene Sohn (1934), Der Kaiser von Kalifornien (1936), Condottieri (1937), Der Feuerteufel (1940). Este último, ao exaltar a rebelião dos tiroleses contra Napoleão, teria irritado Hitler, mas não era a intenção do cineasta incitar uma revolta popular contra ele. Para demonstrá-lo, Trenker publicou Captain Ladurner, um romance pró-nazista (MOSSE, 1991). 2. As Leis Raciais Na Itália, a perseguição aos judeus começou mais tarde que na Alemanha: o Manifesto della Razza