Engobe, Slip e Underglaze, quem é quem? Por Flavia Pircher Em 23.maio.2021 Após o questionamento sobre a diferença entre slip e engobe, feito por uma aluna durante a aula Master on line de Aquarela, me embrenhei nos livros, artigos e anotações pessoais. Fiz descobertas maravilhosas, e aprendi muito. Sou grata por essa aluna ter “levantado essa lebre”, pois mesmo sendo “engobe” a menina dos meus olhos na cerâmica e mesmo tendo experiências internacionais, nunca me atentei especificamente ao uso desses termos e suas diferenças. No Brasil sofremos de um problema crônico na cerâmica que é a falta de unidade na terminologia utilizada. Se tivéssemos um glossário único seria de muita ajuda pra que tivéssemos certeza de que quando falamos sobre um conceito ele será corretamente entendido pelo nosso interlocutor. Infelizmente não é o que ocorre. Regionalizações e má tradução são causas preponderantes nesse cenário. Enquanto eu chamo uma ferramenta de borrachinha, o ceramista do nordeste chama de rim de oleiro (por ter o formato de rim), e assim poderia aqui elencar uma série de termos e palavras diferentes que se referem à mesma coisa. Ou quando inversamente, uma mesma palavra tem diferentes significados. Esse é o caso que ocorre com o engobe e todos seus familiares (slip e underglaze). Quando ensino sobre esse tema, dou a seguinte explicação: Engobe é originalmente uma argila líquida com cor. Essa cor é obtida através de óxidos cromóforos ou pelo uso de corantes e é utilizado para decorar a superfície de uma peça cerâmica. É aplicado na peça antes de biscoitar. Historicamente o engobe era inicialmente utilizado apenas com a finalidade decorativa, e consistia em argila – água – cor. Nas regiões andinas as peças engobadas eram brunidas e com isso conseguiam certo fechamento dos poros da argila, o que possibilitou que as peças fossem utilizadas das mais variadas formas, inclusive com alimentos. Com o desenvolvimento da cerâmica o engobe passou a receber também uma pequena quantidade de fundente para que além da função decorativa ele tenha também a capacidade de vedar os poros da cerâmica após a queima. Conforme me explicou o técnico e consultor em materiais cerâmicos - Nelson Lixa, atualmente na indústria brasileira, o termo “engobe” é usado para designar a mistura de argila ou caulim + água + cor + fundente. Esmalte Cerâmico é um composto de matérias primas cujo principal elemento é o quartzo, que formará a base vítrea. O esmalte é geralmente aplicado na peça já queimada (biscoito). Entretanto pode também ser aplicado na peça crua, no caso da monoqueima. Underglaze (como conhecemos) no Brasil é um composto cuja base é parte argila, parte composto vítreo e parte cor. Pelo fato de ter tanto argila como vidro em sua composição, combina com os dois lados: pode ser aplicado na peça crua ou no biscoito. E desse forma venho esclarecendo pra muitos ceramistas, iniciantes ou já avançados, a diferença básica entre esses elementos. Esses conceitos de engobe, esmalte e underglaze são comuns aos ceramistas brasileiros, e são resultado de anos de pesquisa de profissionais que já estão na cerâmica muito antes de meu aparecimento nesse mundo.