1 Diferenças fatais: suicídio, raça e trabalho forçado nas Américas Fatal differences: Suicide, race, and forced labor in the Americas Marc A. Hertzman  Resumo: Neste ensaio, examino a relação entre raça e suicídio nas Américas. Mostro como as ideias sobre suicídio ajudaram a gerar e reforçar várias formas de diferença racial e demonstro como as ideias coloniais sobreviveram por muito tempo após a independência e a abolição da escravidão, geralmente em novas forma A historiografia existente sobre suicídio enfatiza respostas morais, religiosas e médico- legais à autodestruição. Menos atenção foi dada à raça ou ao fato brutal, amplamente reconhecido (embora raramente discutido em profundidade) pelos estudiosos da escravidão, que a servidão forçada também transformou o suicídio em uma questão essencialmente econômica - uma ameaça aos resultados dos plantadores e comerciantes e uma ameaça à produção. À medida que a escravidão e o trabalho forçado se tornavam sistemas de valores globais dominantes que determinavam quem contava como humano, a capacidade de perecer pelas próprias mãos se tornou um meio de vencer essa determinação. Em algum momento, histórias excepcionais de suicídio heroico de mártires nativos ou negros passaram a fazer parte de narrativas nacionais, mas esse processo dependia da dissociação entre autodestruição e produção econômica, o que ajudou a transformar atos, antes vistos como ameaça às fundações coloniais, em histórias de sacrifício e nascimento nacional. Com o tempo, e apesar das mudanças significativas, a autodestruição funcionou consistentemente como um marcador duradouro da diferenciação racial. Palavras-chave: Suicídio. Escravidão. Brasil. América Latina. Zumbi. Abstract: This essay examines the relationship between race and suicide in the Americas. I show how ideas about suicide helped generate and reinforce multiple forms of racial difference and demonstrate how colonial ideas survived long after independence and the abolition of slavery, often in new forms. The extant historiography on suicide emphasizes moral, religious, and medico-legal responses _____________ Tradução: Mariângela de Mattos Nogueira. Publicado originalmente em inglês, com o título Fatal differences: Suicide, race, and forced labor in the Americas, na American Historical Review, v. 122, n. 2, p. 317-345, 2017.  Associate Professor e Director of Undergraduate Studies, no Departamento de História da University of Illinois, Urbana-Champaign. E-mail: hertzman@illinois.edu. ORCID: https://orcid.org/0000-0001- 8754-3494. Seu primeiro livro, Making samba: A new history of race and music in Brazil (Duke University Press, 2013), ganhou menção honrosa pelo Prêmio Bryce Wood, concedido anualmente ao melhor trabalho sobre a América Latina em Ciências Humanas e Sociais. Gostaria de agradecer aos participantes do workshop do Departamento de História da UIUC e aos colegas de Illinois, incluindo Ikuko Asaka, Jim Brennan, Antoinette Burton, Clare Crowston, Jerry Davila, Dara Goldman, Glen Goodman, Fred Hoxie, Silvia Escanilla Huerta, Nils Jacobsen, Diane Koenker, Craig Koslofsky, Harry Liebersohn, John Marquez, Bob Morrissey, Dana Rabin, Mike Silvers, e Mark Steinberg. Em outras instituições, agradeço a Ana Lucia Araujo, Ned Blackhawk, Celso Castilho, Camillia Cowling, Julia Cuervo-Hewitt, Nicanor Dominguez, Rebecca Earle, Flávio Gomes, Frances Hagopian, Russell Lohse, Yuko Miki, Jeff Ostler, Lara Putnam, Matthew Restall, Terri Snyder, Zeb Tortorici, Sarah Townsend e Brandi Waters. Gostaria também de agradecer ao parecerista anônimo de AHR’s e seus editores, pelos estimulantes comentários e críticas, e a Halley Juvik por apresentar-me Cahuide. Versões deste trabalho foram apresentadas nas Universidades de Harvard, Penn State e Wesleyan. https://doi.org/10.5007/1984-9222.2019.e67255