BRASIL:NOTAS DE UM RETORNO AO PAÍS DA FOME ANA KIFFER / GABRIEL MARTINS DA SILVA Ana Kifer é escritora, professora do Departamento de Letras | PUC-Rio Tradução de Gabriel Martins da Silva, professor de Sociologia, mestrando no Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade | PUC-Rio A horrível inanidade da nossa razão de ser, como dizia Aimé Césaire, defne o espírito vazio, a inanitas do espírito que não cessa de esvaziar os corpos. Vazio como a terra esvaziada, o buraco do estômago, o fosso do corpo e, ainda, o fosso insondável da face, como havia dito Antonin Artaud; esse fosso-corpo, o fosso ainda. Fosso que cruza essas notas de um retorno ― retorno ao país natal, retorno do país natal ao estado de fome, retorno a essa espécie de cena primordial de um país concebido para ser um imenso território de dispêndios extremos. A fome é também um desses dispêndios. Para que haja fome, sempre precisa haver quem come demais, mesmo sem apetite. O extremo da fome traça a face insondável do fosso da “humanidade” enfm revelada. O retorno nos exige também olhar na cara. O buraco se torna uma superfície. Olhar na cara é estar pronto para ver o fm traçado como o início de acontecimentos passados. Escolhi olhar na cara do fm dos dois grandes pensadores da fome no Brasil: Josué de Castro e Glauber Rocha. Que essas notas de um retorno à fome do país natal seja uma homenagem àqueles que, antes de mim, não tiveram medo de olhar o vazio esburacado na cara ― na face do buraco. Trata-se portanto do começo do fm. O fm de duas trajetórias de vida. O fm de uma época também. O fm como princípio organizador da repetição de uma cena, a do retorno. Neste caso, o retorno da fome ao seu país natal. Mais longe ainda: o fm como princípio que puxa o fo, empurrando os limites de um país natal; poderíamos dizer: o fm que tece um país natal como o devir ― para tomar emprestado o termo do escritor Édouard Glissant ― de um Todo-Mundo? Como se trata de vários fns no rastro desse retorno, será importante revisitar a escrita do único romance ― e último texto ― escrito por Josué de Castro. Depois de ter tido que deixar o cargo de embaixador-chefe da delegação brasileira junto à ONU, para a qual havia sido indicado em 1962 pelo então presidente João Goulart, e quando seus direitos foram KIFFER, Ana. Brasil: notas de um retorno ao país da fome. Tradução de Gabriel Martins da Silva. Alter: Revista de Filosofa e Cultura, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 135-138, nov. 2021.