Jovens no Brasil: difíceis travessias de fim de século e promessas de um outro mundo 1 Juarez Dayrell * Paulo César R. Carrano Introdução A orientação principal deste artigo é a de apresentar a situação social dos jovens no Brasil contemporâneo. O texto organiza-se por três eixos principais de análise: os indicadores sociais, as políticas públicas e a participação social e cultural dos jovens empobrecidos das periferias das cidades brasileiras. Partimos da hipótese que conjuntamente ao grave quadro social sobre o qual se desenvolve a vivência dos ciclos de vida juvenis, se desenvolvem novas formas e temas relacionados com os interesses e práticas coletivas dos jovens nas cidades. A participação juvenil, desde que não reduzida aos parâmetros éticos, estéticos e políticos dos movimentos sociais da década de 60, deixa antever ações sociais coletivas da juventude que, mesmo situadas no âmbito da interseção dos mercados de consumo e da produção cultural autônoma, contribuem para o alargamento do processo de construção da democracia participativa no país. A noção de juventude com a qual operamos Inicialmente é importante destacar que o conceito de juventude não pode ser encerrado em esquemas modulares tendentes à homogeneização. A pluralidade e circunstâncias que caracterizam a vida juvenil exigem que os estudos incorporem o sentido da diversidade e das múltiplas possibilidades do sentido de ser jovem. Essa diversidade presente no cotidiano nem sempre encontra correspondência nas representações existentes na sociedade sobre a juventude; é comum que essas sejam ancoradas em modelizações sobre o que seria o jovem típico e ideal. Quase sempre os modelos se espelham em jovens de classe média e alta – as propagandas comerciais não se cansam de recorrer a esse padrão sedutor para o consumo –, reforçando estereótipos nas relações entre as classes sociais. Um balanço sobre os estudos acerca da temática da juventude no Brasil, nas últimas décadas, aponta que a maior parte das reflexões no meio acadêmico se destina a discutir os temas e instituições na vida dos jovens; ainda é pequena a incidência de investigações que se dediquem a perceber como os jovens vivem e elaboram suas situações de vida. Só recentemente ganhou certo volume o número de estudos voltados para a consideração dos próprios jovens e suas experiências, formas de sociabilidade e atuação (Abramo, 1997, Spósito, 2002). 1 Agradecemos à Socióloga Maria Carla Corrochano pelo diálogo que estabeleceu com os autores no processo de elaboração do artigo. * Professor Dr. Adjunto I da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais.