434 AVANCA | CINEMA 2019 A verdade da direita: a produção audiovisual de memória sobre a ditadura de 1964 Mônica Mourão ESPM Rio, Brasil Abstract This paper aims to understand memory operations made by Brasil Paralelo (Parallel Brazil) to construct a positive imaginary of Brazilian military dictatorship (1964-1985) as a strategy in nowadays politics. Brasil Paralelo is an independent media, in their own words. It was created in 2016, the year President Dilma Roussef was impeached. According to their creators, Brasil Paralelo is not an enterprise or an NGO. It does not accept public money and it’s sustained by people’s donation. On March 31, the documentary “1964, o Brasil entre armas e livros” (“1964, Brazil among guns and books”) was realesed, exactly in the military coup anniversary. This paper is going to analyze it, aiming to understand the role of right-wing audiovisual productions in the disputes of Brazilian memory concerning the military dictatorship. Keywords: Truth, Narrative, Memory, Brazililan Dictatorship, Right-wing Audiovisual Production Introdução “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” – João 8:32. do qual ela parte (mimese I) quanto o que se poderia chamar, nos estudos de comunicação, de recepção (mimese III), estão presentes na própria narrativa (mimese II) (Ricoeur 1994). Para nos ancorarmos também nos estudos fílmicos, Vanoye e Goliot-Lété (2008) lembram-nos, de outra maneira, que “embora o cinema usufrua de relativa autonomia como arte (em relação a outros produtos culturais como a televisão e a imprensa), os flmes não poderiam ser isolados de outros setores de atividade da sociedade que os produz” (Vanoye e Goliot-Lété 2008, 27). A versão atual disponível do YouTube do documentário “1964” se inicia com vozes em of de estudantes universitários que teriam sido censurados em seus locais de estudo ao tentar exibir o flme, enquanto imagens de notícias e trocas de mensagens sobre a repercussão do flme são mostradas na tela. – Eu me manifestei como voluntário para reproduzir esse flme na minha faculdade. E eles me disseram que não era possível reproduzir esse flme porque esse flme não condiz com a diretriz da faculdade. – Mas só que, quando o evento não é de extrema esquerda, eles apenas alegam que é falta de agenda. – Tinha um professor que ele era responsável por esses agendamentos, mas só que como nós já tivemos alguns problemas, passando outros flmes que não são da pauta da esquerda, o professor tem sido perseguido o tempo inteiro e hoje ele se encontra impossibilitado de agendar. – Então eu fui atrás dos diretores da faculdade e obtive praticamente a mesma resposta, disseram que o Brasil Paralelo não ia entrar nessa faculdade. – Recebemos informações que esses professores receberam represálias da parte da própria diretoria (Ferrugem 2019). A verdade que liberta, pregada por Jesus Cristo segundo o evangelista João, tem sido usada, no Brasil contemporâneo, por grupos de direita para defender como verdadeira a visão política deles, silenciada – segundo eles – pela hegemonia da esquerda na esfera cultural. Tentativas de restabelecer tal verdade são articuladas em diferentes âmbitos. A frase acima, por exemplo, foi dita pelo atual presidente da República, Jair Bolsonaro 1 , em diversas ocasiões. Também foi proferida pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em seu discurso de posse, no dia 1º de janeiro de 2019. Se todo produto cultural está intrinsecamente ligado ao contexto político-histórico do qual faz parte, tal relação não poderia ser mais evidente do que no documentário “1964, Brasil entre armas e livros”, feito pelo grupo Brasil Paralelo. Com o objetivo de restabelecer a “verdade” sobre a ditadura militar (1964- 1985), ao considerar que ela foi ensinada de forma equivocada nas escolas, o documentário reverbera o discurso do atual governo federal, de intelectuais e think tanks conservadores e neoliberais que atuam no país. O autor Paul Ricoeur, ao desenvolver sua ideia sobre a “tríplice mimese”, aponta para uma compreensão das narrativas através de seus diferentes “momentos”: o mundo pré-fgurado (mimese I), o reino do como se (mimese II) e a jusante da narrativa (mimese III). Destaca, assim, que qualquer narrativa contém imitação e criação, e tanto o mundo A recepção negativa sobre o documentário foi incorporada porque serve à própria lógica do flme: constrói a ideia de que traz uma verdade que incomoda, que a esquerda é autoritária e domina os espaços acadêmicos – algo que será retomado ao fnal do flme, quando é defendida a tese de que a esquerda foi derrotada militarmente, mas venceu na esfera cultural. É essa, afnal, a grande motivação do documentário: ser uma arma para combater o “marxismo cultural”. A recepção (mimese III), incorporada à narrativa, porém, também dialoga fortemente com o mundo pré-fgurado (mimese I): o Brasil está, no momento em que essas linhas são escritas, sofrendo um dos maiores ataques ao ensino público 2 . O documentário começou a repercutir antes mesmo do seu lançamento. No dia 05 de fevereiro de 2019, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), flho do presidente Jair Bolsonaro, postou na sua conta no Twitter o seguinte texto, acompanhado do trailer do flme: