TRANSPORTES v. 20, n. 1 (2012) p. 69–77 69 1. INTRODUÇÃO As zonas periurbanas, também designadas por zonas de transição, caracterizam-se por marcarem a passagem entre ambientes rurais e ambientes urbanos, apresentando características intermédias em relação a estes. De facto, uma zona periurbana é geralmente caracterizada pela existência de índices de construção marginal superiores ao ambiente rural – onde a existência de edifícios marginais à estrada é pontual/isolada – sem que, contudo, apresente uma frente urbana consolidada. As necessidades de acessibilidade aumentam com a densidade de construção, pelo que não é de estranhar que as zonas periurbanas apresentem características intermédias para os indicadores que preconizam a acessibilidade de veículos e peões, tais como a densidade de intersecções, passagens pedonais 1 e passeios. A título de curiosidade, refira-se que uma observação qualitativa sobre a continuidade de passeio 1 António Lobo, Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal. (e-mail: lobo@fe.up.pt). 2 Fernanda Sousa, Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal. (e-mail: fcsousa@fe.up.pt). 3 Carlos Rodrigues, Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal. (e-mail: cmr@fe.up.pt). 4 António Couto, Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal. (e-mail: fcouto@fe.up.pt). Manuscrito recebido em 17/2/2012 e aprovado para publicação em 10/5/2012. Este artigo é parte de TRANSPORTES v. 20, n. 1, 2012. ISSN: 2237-1346 (online). pode fornecer uma forte indicação sobre o tipo de ambiente em causa: em zona rural, o passeio é praticamente inexistente; em zona periurbana o passeio é descontínuo e acompanha frequentemente a existência de edifícios (situação muito comum em Portugal); em zona urbana, o passeio é geralmente contínuo. Situando-se em posição intermédia entre o ambiente rural (limite legal de velocidade de 90 km/h) e o ambiente urbano (limite legal de velocidade de 50 km/h), o ambiente periurbano constitui uma zona de redução de velocidade na aproximação às localidades. No entanto, o Código da Estrada português não estabelece um limite legal intermédio e específico para este tipo de ambiente, que nem sempre consegue transmitir ao condutor a necessidade de redução de velocidade devido à aproximação de uma zona urbana (Schmidt e Tiffin, 1969; Denton, 1976; Matthews, 1978). As zonas de transição são particularmente sensíveis em termos de sinistralidade, registando taxas de ocorrência de acidentes com vítimas bastante superiores às observadas em ambiente rural (Tziotsis, 1992). A publicação produzida pela NCHRP (2011) contempla uma ampla revisão do estado da arte no que concerne ao estudo da velocidade e à implementação de medidas de acalmia de tráfego nas zonas de transição. Em Portugal, as entidades gestoras da rede viária (governo central e autarquias) têm prestado uma crescente atenção à problemática das velocidades praticadas em ambiente periurbano, através da aplicação de um grande número de medidas corretivas do traçado e de medidas de Metodologia para avaliação dos fatores condicionantes da velocidade em regime livre em ambiente periurbano António Lobo 1 , Fernanda Sousa 2 , Carlos Rodrigues 3 e António Couto 4 Resumo: Neste artigo, apresenta-se uma metodologia para a avaliação macroscópica da influência das características geométricas e ambientais e da sinalização de velocidade limite legal na velocidade em regime livre praticada pelos condutores em zonas periurbanas ou de transição. Um condutor circula em regime livre quando a sua escolha de velocidade não é condicionada pela presença do veículo precedente. Assim, a velocidade adotada reflete a sua resposta face às características da estrada e do ambiente envolvente. A metodologia consiste na utilização de métodos estatísticos de análise de dados multivariados, nomeadamente de classificação e de análise em componentes principais, para a definição de variáveis macroscópicas caracterizadoras das zonas periurbanas, sobre as quais é depois efetuada uma análise de regressão que permite a avaliação dos impactos das diferentes variáveis na velocidade em regime livre. A metodologia proposta é aplicada a um conjunto de 27 locais pertencentes a estradas de duas vias situadas em Portugal, onde foram observadas as velocidades praticadas, a existência de sinalização de limite legal de velocidade e diversas variáveis microscópicas caracterizadoras da geometria e do ambiente. Palavras-chave:. Abstract: This paper presents a new methodology for the evaluation of the effects of posted speed limit, geometric and environmental characteristics on free-flow speed in transition zones, through a macroscopic analysis. A vehicle travels under free-flow conditions if its chosen speed is not affected by the presence of the vehicle ahead. In this sense, the free-flow speed reflects the driver’s response to road geometric and environmental characteristics. In the first stage of the proposed methodology, new macroscopic variables reflecting the characteristics of transition zones are created through the use of multivariate data analysis techniques, namely analysis of clusters and principal component analysis. In the second stage, a regression analysis is performed in order to compare the effects of different variables on the adopted free-flow speed. This methodology is then tested for a set of 27 sites located in Portuguese two-lane highways, where drivers’ speed, the existence of posted speed limit and some geometric and environmental microscopic characteristics were col- lected. Keywords:. 1 travessias de pedestres (terminologia brasileira).