Revista Brasileira de Geociências, Volume 34, 2004 1 Irani Clezar Mattos et al. Revista Brasileira de Geociências 34(1):1-10, março de 2004 METAMORFISMO DE CONTATO NO COMPLEXO BOSSOROCA, PORÇÃO SW DO COMPLEXO GRANÍTICO SÃO SEPÉ, RS IRANI CLEZAR MATTOS 1 , RUY PAULO PHILIPP 2 , ANDRÉ SAMPAIO MEXIAS 2 & MARCIA ELISA BOSCATO GOMES 2 1 - E-mail: icmattos@sfigc.org.br 2 - CPGq - Centro de Estudos em Petrologia e Geoquímica, Instituto de Geociências, UFRGS. e-mail: ruy.philipp@ufrgs.br Abstract CONTACT METAMORPHISM IN THE BOSSOROCA COMPLEX, SOUTHWESTERN PORTION OF THE SÃO SEPÉ GRANITIC COMPLEX, RS The São Sepé Granitic Complex (SSGC) is an NE-SW elongate body that intruded low-grade metamorphic rocks of the Bossoroca Complex. The emplacement of the granite in high crustal levels resulted on an aureole of contact metamorphism with 1,5 to 5 kilometers of extension. The thermal effects are registered mainly in metapelitics and metavolcanoclastic rocks of the Bossoroca Complex, and the biotite, garnet, andaluzite and staurolite isograds were mapped. The contact metamorphism extended until the sediments of the Maricá Group of the Camaquã Basin. The cooling of the magma of SSGC is a continuous process characterized by two different stages: the transfer of heat for conduction, resulting on the contact metamorphism, followed by the infiltration of tardi-magmatics fluids with generation of the hydrothermal assemblage. Petrographic and thermo barometric data indicates that the emplacement and the cooling of SSGC happened in little depth, with pressures of the order of the 2,5 to 4,5 kbares and maximum temperatures in the interval among 570 o to 600 o C. The effects of the contact metamorphism also recorded in the sediments of the Maricá Group suggesting that the intrusion of the granite follows the sedimentation of the basal units of the Camaquã Basin. Keywords: Sul-rio-grandense Shield, contact metamorphism, granitic rocks, petrology Resumo O Complexo Granítico São Sepé (CGSS) constitui um maciço com forma ligeiramente alongada segundo a direção NE-SW, intrusivo nas rochas metamórficas do Complexo Bossoroca. O posicionamento do granito em níveis crustais elevados ocasionou a formação de uma auréola de metamorfismo de contato com cerca de 1,5 a 4 quilômetros de extensão. Os efeitos termais estão registrados principalmente nas rochas metapelíticas e metavulcanoclásticas do Complexo Bossoroca, entretanto, estendem-se até os sedimentos do Grupo Maricá da Bacia do Camaquã. Nos metapelitos é possível demarcar em campo, as isógradas da biotita, granada, andaluzita e estaurolita, dispostas respectivamente, da zona mais afastada até as mais próximas do contato. O resfriamento do magma do CGSS é um processo contínuo caracterizado por duas etapas distintas: transferência de calor por condução, gerando o metamorfismo de contato, e infiltração de fluidos tardi-magmáticos, com geração de paragêneses hidrotermais. A reunião dos dados petrográficos, químico-mineralógicos e termométricos indica que a colocação e o resfriamento do CGSS ocorreu em pouca profundidade, com pressões da ordem dos 2,5 a 4,5 kbares e temperaturas máximas no intervalo entre 570 o a 600 o C. O registro de metamorfismo de contato também nas litologias sedimentares do Grupo Maricá é indicativo que o posicionamento do CGSS é posterior a sedimentação da porção basal da Bacia do Camaquã. Palavras-chave: Escudo Sul-rio-grandense, metamorfismo de contato, granitóides, petrogênese INTRODUÇÃO A transferência termal associada à intrusão de corpos graníticos em níveis crustais rasos, representa o melhor exemplo de metamorfismo de contato, como descrito em diversas partes da crosta continental (Turner 1980, Yardley 1989). No Setor Ocidental do Escudo Sul-rio-grandense, a intrusão do Complexo Granítico São Sepé (CGSS) desenvolveu uma auréola de contato em rochas metassedimentares e metavulcânicas do Complexo Bossoroca (Koppe et al. 1985) (Fig. 1). O resfriamento do magma granítico provavelmente ocorre em duas etapas. A primeira, por transmissão de calor para as rochas encaixantes (condução) e, a segunda, pela circulação dos fluidos magmáticos associados aos produtos finais de cristalização (infiltração). As evidências texturais e estruturais encontradas nas rochas estudadas indicam que a cristalização de minerais por metamorfismo de contato é anterior a formação do sistema hidrotermal. Na região oeste do Escudo Sul- rio-grandense o posicionamento do CGSS ocorreu a 550 Ma (Remus et al. , 2000), e representa o magmatismo da etapa pós- orogênica e pós-colisional do Ciclo Brasiliano denominada Evento Dom Feliciano (Chemale Jr.. 2000). O objetivo deste trabalho é apresentar o resultado do estudo do metamorfismo térmico associado à intrusão do Complexo Granítico São Sepé, e integrar informações disponíveis na literatura com novos dados geológicos obtidos. GEOLOGIA REGIONAL E CONTEXTO GEOTECTÔNICO O Complexo Granítico São Sepé (Sartori 1978), também denominado Granito São Sepé por Porcher et al. (1991), situa-se no extremo norte da porção ocidental do Escudo Sul-Riograndense, a sudoeste da cidade de São Sepé (Fig. 2). A porção aflorante deste maciço granítico apresenta forma pouco alongada segundo a direção NE- SW, com dimensões de aproximadamente 22 km de comprimento e 15 km de largura. A intrusão granítica gerou, por metamorfismo de contato, uma auréola termal nas rochas metavulcano-sedimentares situadas a sul do referido maciço. A transmissão de calor ainda foi acompanhada de intensa circulação de fluidos tardi-magmáticos. O Granito Jaguari e o CGSS pertencem à série alcalina, de natureza